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Resenha: Tanaka-kun wa Itsumo Kedaruge


As pessoas são constantemente habitadas por vários sentimentos e sensações diferentes, e de todas as sensações e sentimentos que perpassam nosso ser ao longo do dia um dos que mais marca presença é a preguiça. Todo mundo já sentiu preguiça pelo menos uma vez e existem pessoas que são assoladas por esse “mal” quase diariamente. Assim é o protagonista de Tanaka-kun wa Itsumo Kedaruge: alguém que sente preguiça todos os dias. Tanaka é um garoto que está sempre cansado e sonolento — um autêntico preguiçoso — que é ajudado constantemente por seu amigo, Oota. O enredo mostra como Tanaka vive seus dias e interage com seus demais colegas em meio à tanta preguiça.

A sinopse de Tanaka-kun é curta, enxugada e precisa. Não há muito o que se dizer sobre um anime que gira em torno dos dias de um preguiçoso; porém, apesar de parecer uma história sobre nada, acompanhar Tanaka-kun foi absurdamente prazeroso. O anime tem um ritmo calmo e gostoso, sonolento como o próprio Tanaka, e é divertidíssimo. A cada episódio as coisas só melhoram e os personagens são absolutamente preciosos.

A maneira como Takana desenvolve suas relações com seus amigos sem deixar de lado a preguiça é algo muito curioso e, até mesmo, bonitinho. Todos os seus colegas, todos que o conhecem, sabem que ele é preguiçoso, que esse é o jeito dele e eles aceitam e abraçam isso de uma forma muito legal. Ninguém se irrita com o Tanaka por ele ser do jeito que ele é; o jeito do Tanaka é o jeito do Tanaka e eles convivem em harmonia com isso. Sem contar que cada personagem tem um toque especial que torna quase impossível desgostar deles.

Comecemos pelo próprio Tanaka-kun: ele é sonolento, está sempre cansado e é muito, muito preguiçoso. Mas a preguiça dele é tão bonita! Ele parece tão calmo quando olha para o vazio ou quando tira um cochilo que não há criatura na terra que seja capaz de interromper esses momentos. E, apesar de parecer estar sempre num estado letárgico, Tanaka não deixa de se preocupar com seus amigos e até mesmo de se esforçar à sua maneira. O garoto é, sem dúvida, um protagonista carismático.

Quando se fala em Tanaka é necessário que se fale, logo em seguida, de Oota. O que dizer sobre o melhor amigo do protagonista? O que dizer sobre aquele carrega nosso querido Tanaka para todos os lugares e mantém tudo em ordem? Oota é um grandalhão que, muitas vezes, soa com uma cara de mal-encarado, porém é simplesmente um doce de pessoa. Sempre à postos para ajudar seu amigo, Oota é prestativo e dedicado . Ele cuida de Tanaka de uma forma muito inusitada e sempre garante que o outro garoto chegue nos lugares no horário certo. Oota é uma espécie de cavaleiro especial do Tanaka e os dois juntos são muito engraçados. Uma dupla perfeita, sem dúvidas.

Porém, Oota não é a única pessoa a estar por perto de Tanaka, não. A beleza que a preguiça do protagonista desprende faz com outras pessoas queiram estar perto dele e o admirem. E uma dessas pessoas é Miyano. Miyano é uma garota que é tão pequena quanto animada; ela diz que a preguiça de Tanaka o faz assumir um ar maduro e por conta disso a menina o considera incrível. Miyano se refere à Tanaka como “Mestre” e tenta ter o mesmo ar maduro do garoto. Ela é agitada e absolutamente fofa.

A admiração que Miyano sente por Tanaka faz com que sua melhor amiga também acabe se envolvendo com o protagonista. Echizen é uma garota de aparência arredia e arisca, mas que adora coisas fofas. Ela é uma espécie de delinquente juvenil, porém com um coração de ouro. É também amiga de infância de Oota e quando o garoto relembra os tempos de criança que passou ao lado dela risadas estão garantidas.

Se o jeito preguiçoso de Tanaka faz com que Miyano o considere incrível e maduro, seu lado mais “observador” acaba por colocá-lo em contato com Shiraishi, a bela representante de classe. Apesar de ser muito inteligente e popular, a garota tem um lado secreto: no fundo ela é uma grande nerd. Após Tanaka descobrir esse seu lado e aceitar seu verdadeiro eu, Shiraishi acaba se apaixonando pelo garoto.

Com relação aos personagens ainda é relevante citar Rino, a irmã caçula de Tanaka que tem um apreço muito grande por ele. E Saya, irmã mais nova de Oota que, coincidentemente, é a melhor amiga de Rino.

Não há como negar, os personagens de Tanaka-kun são ótimos, carismáticos e absurdamente engraçados. O anime todo tem um ritmo muito gostoso de se acompanhar. E esteticamente falando, o cenário é lindo. Toda a anatomia do colégio onde os personagens estudam é bem planejada. As cores, o ângulo em que o sol bate... Tudo é muito bonito e dá um ar super aconchegante. Dá para entender o porquê de Tanaka estar sempre prestes a dormir, visualmente sua escola é muito confortável. E não é só a escola que combina com o clima do anime, não. A trilha sonora também, principalmente a abertura. Calma e relaxante. Tudo é muito bem pensado. Já a animação, num conjunto todo, às vezes dá uma ou outra escorregadinha; mas não é nada que chegue a incomodar de fato e todo o resto é tão legal que esse tipo de coisa até passa batido.

Foi muito prazeroso acompanhar Tanaka-kun. É um anime calmo, relaxante, bonitinho e muito engraçado. Ótimo para combater o estresse e desacelerar nem que seja por alguns minutos, uma espécie de bálsamo natural em formato 2D. Não é nada sério, não tem nenhuma trama que dê nó na cabeça, nada com uma enorme densidade psicológica. Entretanto, é só disso que precisamos às vezes: um anime bonitinho, calmo, aconchegante e preguiçoso, como o Tanaka-kun.





Resenha: Mundo de Tinta (trilogia)


“Os livros devem ser pesados, pois carregam dentro de si o peso de todas as coisas do mundo”


Quantas vezes um leitor ao ler um livro não se imagina dentro da própria história? Quantas vezes ao se perder nas páginas de um livro você, leitor, não desejou estar dentro daquele universo? O quão maravilhoso não seria se pudéssemos cruzar a fronteira existente entre realidade e fantasia? Não seria fantástico poder viver sua história favorita e ver-se cara a cara com seus personagens? No universo da trilogia Mundo de Tinta todas essas coisas são possíveis, mas, afinal, seria isso uma benção ou uma maldição?

A trilogia Mundo de Tinta é composta pelos livros Coração de Tinta, Sangue de Tinta e Morte de Tinta. A série é de autoria de Cornelia Funke, mesma autora de O Senhor dos Ladrões, e foi publicada no Brasil pela editora Seguinte.

No primeiro livro, Coração de Tinta, o universo que Cornelia criou nos é apresentado pela primeira vez. É onde conhecemos Mortimer Folchart, um encadernador, e sua filha, Meggie. Mortimer é, aparentemente, um homem totalmente comum. Ele ama os livros quase tanto quanto ama sua filha e dedica seus dias a encaderná-los e restaurá-los. Porém, com o aparecimento de um misterioso cuspidor de fogo, chamado Dedo Empoeirado, descobrimos que Mortimer não é tão comum assim. O encadernador tem um talento curioso: quando ele lê um livro em voz alta é capaz de trazer seres e personagens de dentro do livro para o mundo real, ou ainda, enviar pessoas do mundo real para dentro das páginas do livro; por conta disso, todos o chamam de Língua Encantada.  Há muitos anos atrás, enquanto lia o livro Coração de Tinta, Mortimer trouxe Dedo Empoeirado para o nosso mundo e, em troca, Theresa, sua esposa, foi parar dentro do livro. Mô tenta trazer Theresa de volta a todo custo, mas não obtém sucesso algum; porém, Dedo Empoeirado não fora o único que saíra das páginas de Coração de Tinta, não, o vilão, Capricórnio também viera. Desta forma, Mô desiste de ler sua esposa de volta e cria sua filha sozinho. E agora, anos depois, Dedo Empoeirado reaparece exigindo que Mô o leia de volta. As engrenagens da história giram — e em meio ao aparecimento de Elinor, tia da esposa de Mortimer e Fenoglio, autor de Coração de Tinta — Mô e Meggie, possuidora do mesmo talento de seu pai,  se veem prisioneiros de Capricórnio sem saber se terão um final feliz.

Coração de Tinta é, logo à primeira vista, um livro muito bonito. Ele nos transporta para um novo universo, abre um mundo de possibilidades e nos coloca novamente em contato com uma narrativa de Cornelia. A autora escreve com muita leveza e beleza, as palavras se encaixam muito bem, é uma leitura muito gostosa. Por ser o primeiro livro, Coração de Tinta é o grande encarregado de nos apresentar os personagens e, apesar de não parecer, é muito importante como cada personagem se apresenta no início da história.

Logo de cara, é muito fácil ser conquistado por Mortimer e Meggie. O encadernador é dedicado, gentil e um pai mais do que admirável. Meggie, por sua vez, é uma garota inteligente, forte e corajosa. Torna-se praticamente impossível não simpatizar com os protagonistas da história. E os coadjuvantes também não ficam atrás. Elinor é uma mulher já velha e loucamente apaixonada por livros. Ela é o que poderíamos chamar de “rata de biblioteca” ou talvez ela vá mais além. Afinal, Elinor tem uma enorme coleção de livros e trata cada um deles como seu próprio filho. Fenóglio por sua vez, é um orgulhoso escritor que gosta muito de criar vilões e histórias tristes. E por falar nesses vilões, Capricórnio, Basta, Mortola e outros são mesmo terríveis. Capricórnio nos parece a própria personificação do mal. E o que dizer de Basta e sua navalha? Quanto sadismo não há escondido naquele mascador de folhas de hortelã? E Mortola? A gralha velha, mãe de Capricórnio, mas cujo filho trata apenas como uma governanta? Entretanto, em equilíbrio a esses vilões terríveis, temos Dedo Empoeirado. Durante todo o primeiro livro não se sabe muito bem de que lado ele está; talvez, do lado dele mesmo. Agindo hora de uma forma, hora de outra, o cuspidor de fogo nos confunde e cativa. Não só ao leitor, mas também ao menino Farid, um garoto que é lido do livro As Mil e Uma Noites e, desde então, passa a seguir Dedo Empoeirado.

Coração de Tinta é uma ótima forma de abrir uma trilogia. O livro prende a atenção do leitor fazendo com que este não consiga desgrudar dele até termina-lo e há um fato muito interessante sobre ele. De uma certa forma, pensando nos três livros, Coração de Tinta é o único que soa mais “independente”. Quando você termina de lê-lo, apesar de desejar uma continuação, é possível pensar que a história acabou ali. E ela podia ter acabado ali, podia, mas não acabou.



O segundo livro, Sangue de Tinta, já se abre com uma premissa mais sombria do que o primeiro. Se Coração de Tinta era o começo do sonho, Sangue de Tinta serve para mostrar que todo sonho tem duas faces. O livro começa com Dedo Empoeirado sendo, enfim, lido de volta para o seu mundo. Porém, o leitor que faz esse favor, Orfeu, estava aliado com Basta e Mortola. Enquanto isso, Mô, Meggie e Resa (Theresa), estão morando na casa de Elinor. Resa contou a todos como foram seus anos no Mundo de Tinta e Meggie se mostra completamente fascinada pelo local. A garota está quase obcecada e morre de vontade de ver com os próprios olhos os lugares que a mãe descreve. Por conta disso, ela e Mô estão brigando com frequência. No meio disso tudo aparece Farid, que havia sido deixado para trás quando Dedo Empoeirado foi lido novamente para seu mundo, pedindo que Meggie o leia para dentro de Coração de Tinta. A garota vê nisso uma oportunidade de conhecer o lugar que tanto deseja e lê a si própria para dentro do livro. Logo após, Mortola e Basta aparecem na casa de Elinor com Orfeu e voltam para o Mundo de Tinta levando Mô e Resa consigo. Dessa forma, todos vão parar dentro do universo de Coração de Tinta que não é mais exatamente da forma que Fenoglio o escrevera. O mundo parece estar criando vida própria, mas agora com a ajuda de Meggie, Fenoglio têm esperança de colocar as coisas nos eixos. Uma vez no Mundo de Tinta, Meggie percebe que talvez o lugar não seja tão maravilhoso quanto parece nas histórias e se vê diante de personagens como Cosme, o Príncipe negro, Cabeça de Víbora, o Príncipe Porcino e outros, que antes ela só conhecia através da tinta e do papel.

Sangue de Tinta é um livro mais sombrio e denso que Coração de Tinta. A história vai se tornando mais séria e é quando começa a aparecer de forma mais incisiva o questionamento: será que seria mesmo bom poder entrar dentro de um livro? Os personagens começam a se transformar lentamente. Novos personagens são inseridos e um mundo belo e terrível nos é mostrado. O Mundo de Tinta pode ser muito cruel, porém suas fadas e criaturas mágicas compensam seu lado terrível. Ou será que não? Em Sangue de Tinta, Meggie e Mô têm de enfrentar perigos nunca antes imaginados e se adaptar à um mundo completamente diferente que seduz e amedronta. É um livro onde muita coisa acontece. A história dá várias reviravoltas, quase sempre nos surpreendendo. Sangue de Tinta é um livro que contém muita informação, não só pela grande quantidade de criaturas e personagens que são apresentados nele, mas também por conta de todos os fatos que ocorrem.  Para completar, o final do livro é caótico deixando o leitor maluco para saber o que irá acontecer no próximo.

Morte de Tinta é o terceiro e último livro da trilogia e o nome é mais do que sugestivo. Esse é o livro mais sombrio e também mais triste de todos os três. Durante toda a narrativa há uma melancolia no ar, uma tristeza contínua. É nesse livro também, que a mudança dos personagens se dá por completa. Eles estão transformados e os que ainda não estão, em breve serão transformados. Tudo o que cada um deles passou serviu para marcá-los, despertar neles novos lados antes desconhecidos. Mô, agora não é só mais um encadernador. Mô agora é o Gaio e tem como tarefa corrigir seu erro e mandar para o além o, agora imortal, Cabeça de Víbora. Enquanto isso, Orfeu torce e retorce o Mundo de Tinta como se este o pertencesse, se tornando um dos personagens mais cruéis de toda a trama. Assim como em seu antecessor, muitas coisas acontecem nesse livro também, embora talvez com um ritmo mais lento. Entretanto, apesar de ser, por um lado, mais “parado”, Morte de Tinta não te deixa respirar da maneira devida. Durante todo o desenrolar da trama o leitor teme por seus personagens favoritos. Tudo está por um fio, a qualquer momento muitas coisas podem dar errado. Se antes o Mundo de Tinta já não funcionava da maneira exata que Fenoglio o imaginara, agora mesmo é que as coisas estão ainda mais fora de controle. Talvez a resolução do “grande conflito” do livro aconteça de uma forma meio “rápida”, porém o desenrolar do que veio antes compensar. Em Morte de Tinta acontecem cenas e experiências lindas e empolgantes, tudo acompanhado da já citada melancolia.

O final de Morte de Tinta é feliz, por assim dizer; entretanto, todos os personagens estão marcados. Coisas aconteceram, muitas coisas. Coisas boas e ruins. Coisas maravilhosas e terríveis. E isso tudo não pode e nem deve ser ignorado. Ao final de tudo, a tristeza e tensão que permeia todo o livro se transforma em uma espécie de nostalgia. Algo que ao mesmo tempo que dá uma pontada, também acalenta o coração.

Mundo de Tinta é uma trilogia que podia facilmente ser descrita bela expressão “bela e terrível”, assim como o universo do livro onde a história se passa. O Mundo de Tinta seduz e assusta, atrai e afasta, bate e acalenta. Ele te faz pensar o quão bom, verdadeiramente, seria entrar numa história fictícia. O preço que seria necessário pagar para que isso acontecesse. Se tudo isso valeria a pena. Ainda assim, é fantástico pensar em uma narrativa onde os protagonistas são tão apaixonados por livros quanto o leitor que a lê. Isso te aproxima da história e torna a experiência ainda mais agradável.

Outro grande mérito da trilogia é que Cornelia não constrói uma história que segue apenas um personagem. Apesar de Mô e Meggie serem os protagonistas, em vários momentos o narrador acompanha outros personagens. Não apenas “mais um”, mas vários. Por vezes o desenrolar da história se dá através de acontecimentos que ocorrem em dois lugares diferentes. Algo que faz com que sejamos capazes de acompanhar dois ou mais linhas de pensamento e encadeamento de acontecimentos de uma mesma história que, em um determinado momento, vão colidir em um mesmo lugar. Isso sem contar que as edições são lindas, com ilustrações e citações no começo de cada capítulo.

De toda a trilogia, apenas Coração de Tinta foi adaptado para o cinema. O filme é consideravelmente fiel ao livro e os atores combinam, em sua maioria, bastante com os personagens que interpretam. Assim como o livro, o filme é muito bonito e muito mágico.

Mundo de Tinta é uma trilogia linda, mágica, maravilhosa, bela e terrível. Ela tem personagens maravilhosos e personagens possuidores de uma maldade assustadora. Ela tem momentos engraçados e leves, mas é toda permeada por uma tristeza gigantesca e a sensação de que ela só vai aumentar e piorar. Ela tem criaturas fantásticas como Homens-de-Vidro, Elfos de Fogo e Damas Brancas. Ela tem personagens gentis que precisam se tornar excepcionalmente fortes, como Mô. Ela tem jovens corajosas como Meggie. Ela tem príncipes, reis, camponeses e saltimbancos. E ela tem leitores, muito leitores. Porque Mô, Resa, Meggie e Elinor também são leitores. Eles são leitores como eu e você e é isso que faz com que nos conectemos tão profundamente com eles. E é isso que torna toda a experiência tão mágica. Mundo de Tinta é sobre livros, páginas, tintas, bibliotecas, palavras, livros e todo o amor que leitores nutrem por tudo isso.

“[...]. Bem, talvez vivam mais, porém apenas respiram quando alguém abre o livro. Elas são som prensado entre folhas e papel, e somente uma voz as desperta novamente para a vida! [...]”



Resenha: Boku Dake ga Inai Machi


“Todo dia, passa pela minha cabeça ‘Se tivesse feito isso ou aquilo...’
Mas não é realmente um arrependimento.
É apenas uma desculpa que vem à mente e depois some.
Tenho medo de ir fundo em minha própria mente. ”

Boku Dake ga Inai Machi, também conhecido como ERASED e carinhosamente apelidado de Boku Machi, é um mangá seinen roteirizado e desenhado por Kei Sanbe. Uma adaptação em anime foi produzida na temporada de janeiro de 2016 onde a história do mangá foi adaptada, integralmente, em doze episódios.

O enredo de Boku Machi gira em torno de Fujinuma Satoru, um homem de vinte e nove anos e aspirante a mangaká que volta no tempo sempre que uma tragédia acontece, em especial para evita-la. O fenômeno é conhecido como “revival”. À exceção dessa curiosa habilidade, Satoru vive uma vida normal e, até mesmo, monótona. Um certo dia, sua mãe nota a presença de um sequestrador — um assassino em série que cometeu crimes contra colegas de Satoru durante sua infância — e por conta disso acaba sendo assassinada. O incidente desperta o “revival” fazendo com que Satoru retorne dezoito anos no tempo para impedir não apenas o assassinato de sua mãe, como também de seus colegas.

Falar de Boku Machi é um pouco complicado e um terreno espinhoso. O motivo para isso é bem simples: Boku Machi é aquele tipo de anime que soa bom; ele soa tão bom, mas tão bom que você fica esperando o exato momento em que ele vai começar a desandar. O primeiro episódio do anime é absurdamente impactante, quando acaba você continua colado na cadeira se perguntando o que acabou de ver diante dos seus olhos. A palavra que melhor descreveria o primeiro episódio de Boku Machi seria “impactante”. Temos então, um segundo episódio que também é bom. E então temos um terceiro e um quarto.... Têm-se uma sequência de episódios muito bons, até que em um determinado momento ele começa a ficar um pouco mais previsível para, por fim, culminar num final esperado e perfeitamente aceitável, porém exatamente dentro do que foi proposto, nada além disso. No final das contas, Boku Machi foi bom. Não foi espetacular, mas, embora tenha sido o melhor da temporada que integrava, talvez não vá ser o melhor do ano.

Boku Machi é uma série que pode ser observada por vários ângulos diferentes. Analisando-o a partir do enredo, o anime não tem nada de espetacular; na verdade, ele tem muito de vários clichês sobre viagens temporais e assassinatos em série. A história não acaba tratando com muita profundidade nenhum dos dois temas, embora a série seja mesmo cativante. Observando o quesito viagem temporal pode-se dizer que ela peca um pouquinho por verossimilhança. O Satoru tem essa habilidade conhecida como “revival” e não se tem nenhum tipo de explicação concreta para isso. Ele simplesmente tem essa habilidade e pronto, acabou. Porém, apesar da viagem temporal ir um pouco para o lado do “apenas aceita que dói menos”, o próprio Satoru também não sabe muito bem como ou porque possui o “revival”, então isso meio que equilibra as coisas e deixa tudo mais encaixadinho. Quanto à questão mistério/assassinato em série tudo é bem previsível. Desde a metade da narrativa, talvez até mesmo antes disso, já está bem óbvio quem é o culpado. Na primeira metade do enredo temos umas dicas um pouco mais sutis, mas da segunda metade para a frente as coisas começam a ficar bem escancaradas. Não é difícil descobrir quem é o assassino, só basta prestar um pouquinho de atenção. É nessa direção que as coisas começam a assumir um tom de maior previsibilidade e é nessa direção, também, que a série dá suas escorregadas.

Nesse momento será necessário um spoiler, mas é um spoiler muito previsível que fica bem claro logo no final do primeiro episódio, no fundo não afeta nenhuma “grande revelação” que vá acontecer no desenvolvimento da trama. Assim como acontece em dezenas de histórias de mistérios e/ou romances policiais, quando a mãe do Satoru é encontrada morta todo mundo começa a desconfiar do protagonista. Esse é um discurso muito comum e corrente nesse tipo de história, como já dito anteriormente. Outro fato absurdamente comum nesse tipo de história é o seguinte: tudo que o pobre personagem acusado injustamente faz serve para incriminá-lo ainda mais. Portanto, em um determinado momento da narrativa nós temos uma onda de previsibilidade muito grande, é possível ler, exatamente, o que vai acontecer. Isso acaba tirando um pouquinho a graça das coisas. Acontece algo e você pensa “agora vão achar isso e isso e isso”; aí acontece outra coisa e você pensa “agora vai acontecer isso e aquilo” e, de fato, acontece. Embora logo depois ocorra uma mudança e as coisas sejam levadas, novamente, para uma linha com menor previsibilidade o que está feito já não pode ser desfeito ou negado.

Ainda na linha do mistério/assassinato em série temos o culpado, o assassino em série. Como todo vilão de mistério os atos do assassino são motivados por uma causa X, só que a causa X não convence. Na verdade, no anime a tal causa é explicada de uma forma até que meio corrida e embora você a entenda ela não convence muito bem. Nesse momento acho importante abrir o seguinte parênteses: quando se tem um grande vilão numa história, os seus atos são sempre motivados; o autor da história tende e deve explicar o que motivou esses atos. Ninguém é mau porque é mau, isso não existe, é inverossímil. Um bom vilão é motivado. Quando o autor explana na história a motivação do vilão ele não quer convencer você que os atos do vilão são corretos ou quer que você o absolva, não é isso (as vezes pode ser, mas aí já entra num lugar mais complexo), o que autor está fazendo é construir um bom personagem ou pelo menos um personagem razoável. Em suma, para ficar claro, pense numa novela mexicana: as vilãs de novelas mexicanas são ruins porque elas são más simplesmente por serem más. Elas são personagens planas, não esféricas, elas são mal aprofundadas. Okay, agora voltando, a motivação do assassino não é convincente. Ela não tem muito impacto e o expectador ainda fica “É sério que ele matava criancinhas por causa disso? ” Provavelmente, no mangá essa motivação talvez seja melhor explicada, mas no anime o dilema do assassino é meio raso, não conquista, não convence.

Por último, essa motivação nada convincente acaba levando o assassino a ter uma relação Y com o Satoru. Essa relação Y faz com que, uma vez que há um embate entre eles em um determinado momento, ocorra um discurso que te deixe completamente confuso. O expectador entende as falas, até mesmo entende a relação; mas como a motivação do assassino não foi convincente, isso torna essa relação também não convincente e esse diálogo, por consequência, não convence. É meio que um encadeamento de coisas não convincentes. Esse encadeamento acaba por, mais uma vez, tirar um pouco a graça das coisas. É nesse momento que a narrativa dá sua maior escorregada e é isso que define o que todo mundo já sabia: era bom, era bom, era bom, até que deu uma escorregada.
Entretanto, apesar de todos esses clichês, apesar dessas escorregadas, Boku Machi compra as pessoas, como? Bom, primeiramente, os personagens são bons; em segundo lugar, a narrativa trata de um assunto que é capaz de sensibilizar muita gente e que é o grande carro chefe da história.

Uma vez que se vá falar dos personagens é interessante começar pelo próprio Satoru. O protagonista tem vinte e nove anos, uma idade não tão comum para protagonistas de mangá. Entretanto, esse é um elemento e tanto e é o que faz com que o espectador seja conquistado logo no primeiro episódio. Fujinuma Satoru, aos vinte e nove anos, é um fracassado. Obviamente, a palavra é pesada; obviamente também, ele seria um fracassado segundo o olhar da sociedade, não que ele seja isso realmente. Enfim, o que importa é que o protagonista tem vinte e nove anos e não vive a melhor vida do mundo. A vida dele é parada, é monótona e ele é, absurdamente, apático. Existe, em sua mente, uma espécie de borrão relacionado à sua infância e ele é incapaz de ir fundo em sua mente ou se conectar com ele mesmo e seus próprios sentimentos. Resumindo tudo: o Satoru é apático mesmo. Toda essa apatia causa uma espécie de sensibilização, o Satoru cativa porque é apático. Ele cativa porque é monótono, porque é chato, porque é quase melancólico. Todas essas características juntas acabam por comprar o espectador rapidamente, talvez porque todas elas venham temperadas com uma espécie de sinceridade. Porém, Satoru ativa o “revival” e volta dezoito anos no tempo nos dando, agora, um protagonista criança. Entretanto, apesar de ter um corpo infantil ele conserva a memória dos seus vinte e nove anos sendo, portanto, um protagonista duplo: ao mesmo tempo em que é uma criança, Satoru é também um adulto.  Esse “protagonista duplo” torna tudo mais interessante. Para além disso, ele também se desenvolve de uma forma positiva ao longo da trama. A palavra que melhor caracterizaria Satoru seria “cativante” e é esse protagonista cativante o primeiro gancho de Boku Machi.

Outra personagem muito importante é a Sachiko, a mãe de Satoru. Sachiko é observadora, astuta e uma mãe maravilhosa. A relação dela com Satoru também se desenvolve ao longo da trama e é muito fácil amar a Sachiko. Basicamente, ela é essa mãe maravilhosa em oposição à uma outra mãe que deixa muito a desejar.

A turma de amigos do colégio de Satoru também são muito legais. Kenya, Hiroomi, Osamu e Kazu são muito fofos e os dois primeiros acabam se envolvendo bastante com o mistério central da trama. São a parte mais engraçada e bonitinha da história. Crianças são sempre boas personagens.

Há ainda, a Airi, uma colega de trabalho de Satoru que é uma fofa e a única que acredita que ele não é culpado pela morte da mãe. E o professor excessivamente bonzinho, Yashiro.

Em resumo, os personagens da história são bons. São eles que fazem com que, apesar dos pesares, Boku Machi conquiste o público e seja uma história prazerosa de se acompanhar. Porém, ainda falta falar de duas personagens. Essas duas estão diretamente ligadas ao elemento que é o grande carro chefe da narrativa. Como já dito, Sachiko é uma mãe maravilhosa em oposição à uma mãe que deixa muito a desejar; essa pessoa é Hinazuki Akemi, a mãe de Hinazuki Kayo. Ao dizer que Akemi é uma mãe “que deixa muito a desejar” há uma grande generosidade no termo. Akemi abusa, fisicamente, de sua filha; a Kayo apanha regularmente de sua mãe. Esse é carro chefe de Boku Machi.

Antes de mais nada, abuso infantil é algo real e um caso sério, isso ocorre de verdade. Provavelmente por ocorrer de verdade é que esse elemento da trama causa um baita impacto. A palavra que descreve o abuso sofrido por Kayo não é “emocionante”, mas sim, mais uma vez, “impactante’. O que esse elemento causa é “sensibilidade”, mas não é uma emoção de chorar, não. É raiva, é revolta, é desespero. Uma coisa importante em tudo isso, num plano mais geral da história, é que Kayo é uma das vítimas do assassino em série. Ela é a primeira vítima e, assim que é descoberto o abuso que Kayo sofre, é possível perceber que se ela não sofresse abuso talvez não tivesse sido uma vítima. Ela é a vítima mais difícil de se salvar e se manter em segurança porque não está em segurança nunca, nem quando está dentro de sua própria casa! Kayo é a segunda melhor personagem por causa disso; ela é tão cativante quanto Satoru porque você quer protege-la a qualquer custo. E em várias cenas essa é a única coisa que o espectador é capaz de pensar. Muitas vezes você sabe o que vai acontecer, é óbvio, a trama toda já se mostrou óbvia, mas é necessário proteger a Kayo. Existem momentos em que você observa as cenas e o que impera é que, novamente, não vai ser possível proteger a Kayo. O abuso sofrido pela garota é um elemento tão impactante que desvia os olhos do espectador da trama central, dos escorregões, da previsibilidade da trama central... Kayo é preciosa, é uma criança que sofre abuso e ela precisa ser protegida. O abuso que ela sofre é uma das coisas que asseguram a qualidade de Boku Machi. Kayo causa empatia e o tema que a envolve não é tratado de forma leviana.

Ainda como elemento positivo do anime podemos destacar a execução técnica. A animação é boa, de qualidade e a trilha sonora é ótima. Tanto a abertura quanto o encerramento são bons não só no sentido de que as músicas são boas como também porque elas casam perfeitamente com as cenas designadas para a abertura. Fica tudo muito amarradinho, muito bonito. E, vamos combinar, utilizar Re:Re do Asian Kung-Fu Generation é quase apelação.

Num balanço geral, Boku Machi foi um bom anime. Não foi o melhor anime de todos os tempos, mas foi legal de se acompanhar. Apesar de ter alguns (muitos) clichês, de não desenvolver plenamente nenhum dos dois temas centrais e de ter algumas partes bem previsíveis, num todo conseguiu executar de forma adequada o que se propôs a fazer. Tinha potencial para mais, mas não foi uma catástrofe. Com elementos e personagens que cativam e compram o espectador Boku Machi aposta no impacto, seja em suas cenas, seja em sua abertura. Apesar de todos os pesares, Boku Machi poderia mesmo ser definido pela palavra “impactante” e, o saldo final de tudo é um bom entretenimento.  






Resenha: Haruchika - Haruta to Chika wa Seishun Suru


Nada se compara ao prazer de encontrar uma mídia com uma temática que te agrada absurdamente. Nada se compara à satisfação de ser fisgado por uma ideia, uma premissa, uma promessa... Nada se compara à frustração de ver as suas expectativas não sendo atendidas. Infelizmente, foi exatamente isso o que aconteceu com Haruchika.

Haruchika: Haruta to Chika wa Seishun Suru foi um anime pelo qual me interessei pela sinopse, embarquei pelo PV e fui desanimando pouco a pouco conforme o seu desenrolar. A história gira em torno de Haruta e Chika, dois adolescentes membros do clube de instrumentos de sopro de sua escola que está prestes a fechar. Os dois são amigos de infância e passam seus dias praticando seus instrumentos e tentando recrutar novos membros para o clube. Até que um certo incidente acontece e eles se juntam para resolver o mistério.

Quando li que Haruta e Chika faziam parte de um clube de metais fiquei instantaneamente animada. Sou apaixonada por histórias que envolvem música, sejam elas encontradas em filmes, animes ou livros; o clube de metais me chamou a atenção. Quando assisti o PV achei o visual e o clima tão bonitos que não pensei duas vezes antes de adicioná-lo a minha lista. Ao assistir o primeiro episódio, a abertura me soou tão bonita de forma que não pude deixar de pensar que ia mesmo gostar muito do anime. Infelizmente, eu me enganei.

Antes de continuar, queria deixar claro que vou tentar ser o mais justa possível ao falar de Haruchika. Não acho que a palavra ruim seja a correta para descrevê-lo, prefiro a palavra frustrante. Eu me senti, de uma certa forma, enganada pelo anime. Ele me prometeu uma coisa e me deu algo diferente, porém, esse algo diferente não foi capaz de me conquistar.

A premissa inicial de Haruchika é ser um anime sobre música. A sinopse te promete isso, o PV te promete isso, a abertura te promete isso, existem personagens na história que querem ser músicos profissionais... Toda a conjuntura inicial da história te diz: isso é um anime sobre música; é uma história sobre um clube de metais. Entretanto, no desenrolar da narrativa o clube de metais é completamente deixado pra escanteio. Ele não recebe o menor destaque, se tornando apenas um plano de fundo. Em um determinado momento, percebe-se que não faria a menor diferença se Haruta e Chika fossem membros de um clube de economia doméstica ao invés de um clube de metais. A história é sobre resolver mistérios, não sobre música.

Nesse momento talvez alguém me acuse de estar sendo inflexível. Talvez, só talvez, eu não devesse me importar com o fato do clube de metais se tornar algo quase irrelevante para a história. Porém, vamos pensar um pouco: imagine que você compra um doce e na embalagem está dizendo que é chocolate com essência de morango. Você o compra porque está com vontade de comer chocolate, mas, uma vez que a embalagem é aberta, você se vê diante de um doce de morango com uma única gota de chocolate. Por mais gostoso que seja o doce de morango você fica chateado, afinal, você queria chocolate, não doce de morango. O que acontece com Haruchika é exatamente isso.

Sendo sincera, o doce de morango não é excepcionalmente gostoso; embora seja bem-feito, seu sabor é apenas aceitável. Explicando melhor: alguns mistérios são bem bolados, outros são medianos. Ironicamente, ou não, o mistério do primeiro episódio é bom. Ele é bem pensado, dá um nó interessante na sua cabeça e você se sente envolvido o bastante para tentar resolvê-lo. A partir do segundo episódio as coisas já não fluíram tão bem, alguns mistérios foram bem interessantes, outros tinham um baita potencial e tiveram desfechos medianos ou até mesmo decepcionantes.  

Já em relação ao clube de metais que ficou de plano de fundo, a ambição dos integrantes de conseguirem tocar em um grande concerto é desenvolvida de uma maneira qualquer. Antes que você perceba o concurso do qual a banda participa já está acontecendo e, após uma única piscadela, eles já estão na parte final da competição. Dá pra ficar bem espantado com a rapidez do andamento dessa parte secundária da história. Entretanto, não vou negar que a apresentação deles foi bonitinha.

Deixando um pouco de lado a narrativa e seu desenrolar gostaria de falar um pouco dos personagens. Vou citar apenas três deles, pois os outros vão aparecendo pouco a pouco e alguns aparecem de um jeito até que interessante, portanto, prefiro deixá-los escondidos.

Comecemos pelo Haruta, um dos protagonistas. Ele é um personagem interessante, é perspicaz, inteligente e observador. Basicamente, quem resolve os mistérios é o Haruta. O garoto tem sempre uma resposta na ponta da língua e sente um prazer imensurável em provocar Chika, sua amiga de infância. Ele também é apaixonado por Kusakabe, o professor responsável pelo clube de metais. Isso é algo que eu gosto em Haruchika, pela primeira vez um personagem homossexual está inserido numa história onde a narrativa não é focada em sua homossexualidade e o foco não é sua relação afetiva. Não que haja algum problema com yaoi e shounen-ai, longe disso, apenas é interessante e importante ter um personagem assumidamente gay numa narrativa onde o foco não é romance. Afinal, existem personagens heterossexuais em todos os tipos de história e já passou da hora de personagens gays serem inseridos nessas mesmas histórias de uma forma natural e respeitosa. Quando o Haruta diz pra Chika que é apaixonado pelo Kusakabe ela se preocupa com o fato de tê-lo como rival, não com o fato dele ser um garoto gostando de alguém do mesmo sexo. Também é importante frisar que o Haruta não tem os trejeitos excessivamente afeminados, ou caricatos, ele é um personagem como qualquer outro. E é personagem bem construído e carismático.

Quanto à Chika, a primeira coisa que preciso dizer sobre ela é que se trata de uma tsundere. Entretanto, ela é uma espécie de tsundere em negação, talvez. Chika é agressiva, desastrada e barulhenta, mas tenta aparentar calma, concisão, maturidade e ser fofa. De fato, fofa ela é, já madura, concisa e calma... A garota até que tenta, mas Haruta sempre a provoca obrigando-a a mostrar seu lado irritadiço. Essas cenas são bem engraçadas, as cenas dela e do Haruta são engraçadas. Ela também é apaixonada pelo Kusakabe e tem um bom coração e bastante vontade de ajudar os outros. Por algum motivo ela me irrita um pouco, mas não é como seu a considerasse uma personagem ruim. Só tenho uma predileção pelo Haruta mesmo.

O terceiro personagem mais importante da história, por assim dizer, é o Kusakabe. Ele é o professor responsável pelo clube de metais do colégio de Haruta e Chika. Kusakabe tem uma boa aparência e um ar calmo e misterioso, também é bastante dedicado e preocupado com os alunos. Ele foi considerado um gênio no meio musical e era um famoso maestro que acabou por largar tudo para se tornar professor. Existe um mistério rondando essa sua renúncia repentina ao seu futuro promissor; mistério esse que permeia toda a narrativa sendo citado em doses homeopáticas. Por um lado, isso é bom porque não torna a questão cansativa, por outro lado dá quase para esquecer desse elemento da história. Entretanto, na metade da narrativa aparece um novo fato que reaviva essa questão que, felizmente, é resolvida até o final do anime.

Embora considere os personagens de Haruchika interessantes, eles não foram suficientes para barrar meu desagrado. Entretanto, eu prometi ser justa com o anime, então é importante falar que ele é bem executado. A trilha sonora é legal, a animação é bem-feita (pelo menos não me lembro de ter visto nada desagradável nesse aspecto em nenhum dos episódios. Sim, eu assisti todos eles), a abertura e o encerramento são bonitos. Técnica e visualmente Haruchika é agradável; não é um anime malfeito... Bom, talvez o desfecho do último episódio pudesse ter sido feito de uma forma um pouquinho diferente; não digo quanto à narrativa em si, mas sim quanto à organização do fechamento do episódio em si. Entretanto, não acho que apenas isso seja suficiente pra criticar execução geral do anime, nesse quesito arriscaria dizer que ele foi impecável.  Ainda assim, apesar de ser bem-feito, o produto da narrativa não me deixou aproveitar essa boa execução. Talvez eu esteja sendo muito chata e inflexível, sim talvez eu esteja, mas o desenvolvimento da história não conseguiu me tocar. A narrativa não me encanta. Quando penso em Haruchika penso em “propaganda enganosa”, por isso não digo que ele é necessariamente ruim, mas sim frustrante.

Haruchika pode vir a ser uma experiência interessante para alguém que esteja procurando um anime sobre mistérios e que entre nessa com consciência disso, para quem espera outra coisa talvez não funcione muito bem. Pelo menos não funcionou comigo. Eu esperava que o anime fosse muito bom, porém foi frustrantemente mediano. Mas tudo bem, a vida segue, afinal, nem sempre que temos as expectativas correspondidas, não é mesmo?  


Resenha: Ao no Kanata Four Rythm


Quando faço a lista dos animes que acompanharei durante a temporada vigente me deparo com muitas histórias diferentes. Algumas me ganham rapidamente, outras não consigo me conectar de forma alguma e, vez por outra, me vejo diante de surpresas muito agradáveis. Foi isso o que aconteceu com Ao no Kanata no Four Rhythm.

Abreviado como Aokana, Ao no Kanata no Four Rythm é, originalmente, uma visual novel lançada em novembro de 2014. A história se passa numa realidade onde as pessoas usam calçados que permitem que elas voem, os chamados Grav-Shoes. Nesse universo há um popular esporte conhecido como Flying Circus (FC). Hinata Masaya tinha um futuro brilhante no FC, mas após uma derrota humilhante e algum outro motivo, acaba abandonando o esporte. Entretanto, ao conhecer a aluna transferida, Kurashina Asuka, recupera sua paixão pelo esporte ao ensiná-la a voar.

Quando li a sinopse de Aokana não dei absolutamente nada por ele. Inicialmente, eu nem ia assistir, entretanto, o PV foi tão bonito que pensei: por que não? Durante os primeiros episódios não vi nada de especial no anime; na verdade, eu pensei que ele fosse ser apenas mais um anime mediano, ou até mesmo enveredar para o lado do ecchi e harem.... Felizmente eu estava errada.

Aokana, dentre os animes que acompanhei na temporada de janeiro, teve um dos melhores desenvolvimentos. Não digo isso porque ele é algum suprassumo ou algo do tipo, mas porque ele superou as expectativas. Apesar de aparentar não ter nada de especial, ou dar indícios de ser apenas mais um anime com um enredo interessante e mal aproveitado, Aokana é muito maior do que tudo isso. A história vai se desenrolando aos poucos e é dado um grande destaque para o esporte. O Flying Circus não é apenas um plano de fundo ou alguma espécie de desculpa para gerar fanservice. O esporte é desenvolvido e se mostra muito emocionante! A cada episódio as partidas vão ficando mais acirradas, mais bonitas, mais impactantes... E a maneira como isso se dá é algo muito agradável. Você se sente surpreendido a cada episódio, você vê a história crescendo diante dos seus olhos, é uma ótima sensação.

O núcleo de personagens também é um fator a ser considerado em Aokana. Apesar de nem todos eles terem sido desenvolvidos na rota que o anime adaptou, todos são bem carismáticos. A começar pelo próprio Masaya. Ele é um ex-jogador de FC que não quer mais saber do esporte, entretanto, quando a Kurashina entra na história e ele começa a ensiná-la a voar, os sentimentos dele pelo FC começam a aflorar novamente. De uma certa forma, a Kurashina acaba arrastando o Masaya de volta para o FC, principalmente porque ela começa a praticar o esporte da forma mais inusitada possível. Quanto à personalidade do próprio Masaya, ele soa meio reservado e, ao mesmo tempo, o mais centrado dos personagens, visto que os outros estão sempre muito agitados. Esse ar mais “sério” do Masaya me conquistou bem rápido, ele foi o primeiro personagem de quem gostei.

Quanto à aluna transferida, Kurashina Asuka, só tenho elogios a tecer. No começo, a Asuka me irritou um pouco. Ela era engraçada, mas a voz dela é muito aguda, isso sem contar que a garota parecia ser só mais uma daquelas personagens moe meio burrinhas, porém sem nenhum toque especial. Entretanto, conforme os episódios foram passando e a história se desenvolvendo acabei me apaixonando totalmente por ela. Asuka é animada e simples, além de hilária. Tudo bem, tudo bem, a voz dela ainda me irrita um pouco, mas ela tem algo que te conquista aos pouquinhos. Talvez porque ela seja muito inocente, talvez porque ela sempre veja o lado bom de tudo, talvez porque ela esteja sempre pronta a aprender mais, ou talvez porque ela é absurdamente atrapalhada e não se importa com isso... Os motivos são muitos e até mesmo incertos, mas a Kurashina se tornou a minha personagem favorita ao final de tudo. Para coroar, a garota protagoniza algumas das partidas mais emocionantes de todo o anime.

Apesar de Masaya ser o grande “treinador” da Kurashina, como ela mesma o chama, não foi apenas ele quem a ensinou a voar, mas também sua colega, Tobisawa Misaki. A Misaki é um estudante do segundo ano da mesma classe do Masaya e da Kurashina. Ela já havia praticado FC antes e acaba voltando a praticar o esporte, em partes, também pela influência da Asuka. Misaki é super dorminhoca, aquele tipo de pessoa que não funciona nem um pouco pela manhã e sua comida favorita é udon. Inclusive, Misaki é levada a fazer muitas coisas em troca de comer udon. Se comparada à Asuka acaba tendo uma postura mais séria, porém tem um lado meio agressivo, embora não chegue a ser cem por cento uma tsundere. Tobisawa é absurdamente bonita e acaba desenvolvendo uma amizade bem bonita com a Asuka. Ela também vive sendo seguida por uma caloura, Arisaka Mashiro.

Mashiro é uma caloura completamente apaixonada pela Misaki, em todos os sentidos, diga-se de passagem. Na verdade, em muitos momentos ela é até que bem ciumenta, o que gera cenas engraçadíssimas. Mashiro começa a praticar FC pelo simples motivo de Misaki ter voltado a praticar o esporte; entretanto, ao longo da história ela acaba pegando gosto pela coisa e desenvolvendo seu próprio estilo. Mesmo tendo “entrado só por entrar”, acaba se revelando uma jogadora muito esforçada.

Esses são os personagens com que mais se tem contato logo no início do anime. Existem outros personagens importantes, porém como eles aparecem mais para a frente ou tem algum tipo de inserção meio misteriosa, não vou falar deles para não dar spoilers.

Acho que de todos os animes da temporada de janeiro Aokana acabou se tornando um dos meus favoritos. Foi muito empolgante e divertido acompanhá-lo, foi minha grande surpresa, foi minha surpresa favorita. Eu não dava nada por ele, absolutamente nada, e quando dei por mim esperava ansiosa por cada novo episódio. Fiquei absurdamente feliz do Flying Circus não ser tratado de forma leviana, a maneira como o esporte está inserido na história torna tudo muito interessante. E as cenas das partidas são lindas. O último episódio tem a partida mais linda e emocionante de todas. Eu fiquei extasiada. A maneira como tudo foi feito, a música tocando no fundo, toda a trajetória dos últimos episódios que havia levado os personagens até aquele momento.... Foi muito empolgante e divertido.

Com relação à opening e ao ending eles são bons e combinam bastante com todo o clima da história. A animação é boa também, inclusive nas partidas, as cenas foram bem-feitas.  Aokana foi bonito, em todos os quesitos.

Aokana é um daqueles animes que eu recomendaria para as pessoas. Ele é surpreendente, ele é gradativo, ele fica melhor a cada episódio. É uma escala que só vai para cima e não decepciona, o final é tão empolgante quanto os episódios que o antecedem prometem. Além de tudo, Flying Circus é um esporte onde garotos e garotas competem um contra o outro. Não há divisão por gênero porque é um esporte onde as pessoas voam, então ambos os sexos podem competir em pé de igualdade. Isso sem contar que esse é um dos poucos animes onde garotas praticam um esporte e esse esporte não é usado apenas como forma de sexualizar as meninas em questão.  Em suma, gostei muito de Aokana. Foi bonito, surpreendente, empolgante e divertido, convincente, leve, apaixonante. Tão convincente, leve e apaixonante quanto a própria Asuka.





Resenha: Prince of Stride - Alternative

“Stride é sobre conectar sentimentos...”

E o anime da vez é Prince of Stride: Alternative! Eu sei, eu sei, não costumo assistir animes de esporte, mas para esse me rendi. 

Prince of Stride: Alternative foi adaptado a partir de um otome game de mesmo nome. O enredo gira em torno da equipe de stride da Academia Honan. Os primeiranistas do colégio, Fujiwara Takeru e Sakurai Nana, tentam recomeçar o clube, que já está praticamente extinto. Uma vez com o clube formado os garotos têm como objetivo ganhar o “End of Summer”.

Acho que a palavra que melhor descreve Prince of Stride é “animação”. Foi o anime mais animado de toda a temporada passada e, não, isso não é nenhum tipo de trocadilho. Acompanhar Prince of Stride me fez muito feliz e animada. Me diverti horrores com o anime, me fazia relaxar como nenhum outro.


Geralmente, não sou de assistir animes de esporte. Acho que acompanhei um número bem reduzido de história nesse estilo. Não que eu tenha algum preconceito ou algo do tipo, não é nada disso, só uma questão de poucos terem me chamado a atenção.

Quando vi Prince of Stride, inicialmente, não pensei em assistir. Um anime com a palavra “prince” não costuma ser, exatamente, meu tipo de anime. Entretanto, visualmente, tudo parecia muito bonito, então resolvi dar uma chance. Foi amor logo no primeiro episódio. E o negócio só foi melhorando a cada semana. Sempre mais divertido, mais empolgante, mais leve...Gostei mesmo de acompanhar a série.
 
Eu tinha com Prince of Stride o mesmo receio que tinha com Free! Embora, acredito ter mergulhado nessa muito mais desarmada do que quando comecei a assistir o anime de natação. O resultado acabou sendo o mesmo: conquistada, logo de cara. Assim que assisti a primeira corrida meu coração foi totalmente arrebatado pelos garotos da Honan. Uma das coisas que eu vejo como um dos grandes pontos positivos de Prince of Stride é a personalidade dos personagens. Eles são bem mais esféricos do que os personagens de Free que, por sua vez, são muito mais típicos. Obviamente, os corredores da Academia Honan têm características marcadas comuns ao gênero no qual se encaixam, mas eles têm algo a mais. Uma espécie de complexidade maior que me agradou bastante.

O clube de stride da Honan é composto por sete membros. Primeiramente, temos Sakurai Nana, a única garota do grupo. Ela entra na Honan só pelo stride e um dos seus primeiros objetivos é reviver o clube. A Sakurai é muito fofa e muito dedicada ao clube e aos seus membros. Sempre tenta ajudar todo mundo e tem uma das visões mais românticas, e bonitas, do stride.

Então, temos Yagami Riku, irmão mais de novo de um grande talento do stride. Ele é muito empolgado! De todos os membros é um dos que mais tem energia e é bom em vários outros esportes além do stride. Ele faz uma grande dupla com o, também novato, Takeru.

Fujiawara Takeru é um dos primeiranistas que, junto com Sakurai, tenta levantar o clube de stride. Ele também entrou na Honan só pelo esporte e é muito disciplinado. Takeru é muito focado; ele quer muito vencer o Ed of Summer, mais do que isso, ele quer muito correr. O garoto corre o tempo todo! E sim, isso me lembrou muito o Haru de Free!

Obviamente, não só de novatos se faz o clube de stride da Honan, não podemos nos esquecer dos veteranos. Dentre eles está Kohinata Hozumi, o mais delicado dos membros. O Kohinata parece uma garota e isso acaba causando alguns incômodos para ele as vezes. Ele é muito preocupado com a situação do clube e dos membros; também é muito empolgado e é ótimo em passar pelos obstáculos do percurso durante as corridas.

Entre os veteranos também se encontra Hasekura Heath. Vejo muito o Heath como o “grande boa pinta” do clube. Ele é o presidente e está sempre disposto a dar aquela injeção de ânimo no restante do grupo.

Outro veterano do clube é Kuga Kyousuke. O Kuga tem uma expressão meio misteriosa, como se uma espécie de névoa o circulasse. É um personagem bem intrigante, principalmente no começo da história. Inicialmente, ele é ex-membro do clube e está envolvido num conflito que.... Bem, assistam e descubram.

Por último, mas não menos importante tem o Kadowaki Ayumu. Ele é muito bom em shôgi e é, em teoria, o membro mais “fraco” do clube. Entretanto, Ayumu é bem esforçado e dá tudo de si pela Honan. Ele também está inserido em muitos dos escapes cômicos do anime.

Preciso falar ainda do professor responsável pelo clube, Dan Yuujiro, sempre com suas expressões idiomáticas cheias de significado, pronto para aconselhar seus alunos. Ele tem um ar sério e reservado, sem nunca deixar de se preocupar com o clube.

Todos os personagens do clube da Honan são muito especiais e queridos (e bonitos), cada um deles têm um diferencial bem legal e todos acabam sendo muito divertidos. Além dessa maior “complexidade” dos personagens, outro ponto forte de Prince of Stride é a pouca enrolação. O enredo não fica girando em volta sempre do mesmo conflito, as coisas se resolvem rápido, o que impede que fiquem muito dramáticas e cansativas. A história não foca só num problema entre dois ou mais membros do clube, ou no problema familiar de um único personagem.... As coisas se resolvem. Isso conferiu muito mais leveza ao anime e fez com que ele abrangesse mais conflitos. Era legal ver as coisas se resolvendo rápido, além da animação, empolgação e diversão que já proporcionava.
 
Quanto à trilha sonora, bem, animes de esporte costumam ter sempre isso como ponto positivo. Com Prince of Stride não é diferente. A abertura é super animada e contagiante, o encerramento gruda na sua cabeça igual chiclete e a música das competições combina perfeitamente com a cena. E que competições! As cenas de corrida são lindas, muito bem-feitas. Os personagens correm de um jeito muito lindo; as cores e a música dão um clima muito especial. É absurdamente empolgante. Você compra, mesmo, a ideia de que stride é sobre conectar os sentimentos. Todo o discurso bonitinho deles sobre o esporte faz sentido quando você os vê correndo. As cenas de corrida eram minhas cenas favoritas, fiquei muito apaixonada, mesmo.

Em resumo, Prince of Stride me divertiu muito. Foi animado, empolgante, leve, engraçado e bonito (em vários sentidos). Teve um discurso bonito sobre o stride, teve lindas cenas de corrida, teve discurso de amizade digno de shounen e não ficou girando em torno de um único conflito que podia ser facilmente resolvido. Isso tudo com uma boa execução: trilha sonora e animação dignas de um anime que tem como objetivo ser bonito mesmo! Foi muito gostoso acompanhar esse anime, torcer pelos corredores da Honan e rir litros com as cenas engraçadas. Pode não ter sido o melhor anime da temporada de janeiro, mas com certeza, é um ótimo remédio contra o estresse.

“.... leve esses sentimentos até a linha de chegada! ”