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Resenha: Nejimaki Seirei Senki: Tenkyou no Alderamin

“Todo herói morre de cansaço”

   Toda temporada de animes que se inicia é como uma espécie de primavera, ainda que ela não se passe na dita estação. A cada nova temporada várias séries diferentes estreiam e, acompanhando-as, iniciam-se também uma infinidade de comentários, expectativas, decepções — as vezes acontece — e surpresas! Estas últimas podem ser agradáveis ou não, no caso de Alderamin, agradável é o mínimo para descrevê-lo. A série foi a agradável surpresa da temporada de julho de 2016. 

   Nejimaki Seirei Senki: Tenkyou no Alderamin é originalmente uma série de light novel escrita por Bukuto Uno e ilustrada por Sanbasou (volumes de um a cinco) e Ryuutetsu (volume seis em diante). Além do anime, há também um mangá baseado na série escrito por Taiki Kawakami. O enredo da história é o seguinte: A República de Kioka está em guerra com seu vizinho, o Império Katjvarna. Nessa região, devido a algumas circunstâncias, havia um jovem se preparando a contragosto para o exame de Oficial Militar de Alta Classe. O jovem em questão é Ikta Solork. Ele é um preguiçoso que odeia guerras. Ninguém previu que o gentil Ikta se tornaria um soldado referido até mesmo como um grande comandante. Ele sobreviveu a um mundo envolto em guerra com seu gênio superior. As cortinas se abrem ilustrando sua vida, dinâmica e dramática, e sua esplêndida e fantasiosa história militar.

   Alderamin se passa num cenário de guerra, porém, isso não chega a ser algo assim tão diferente. A história não é a primeira, nem será a última a estar imersa num universo dessa espécie. Entretanto, Alderamin é instigante. Conforme a narrativa vai se desenvolvendo, existem passagens que podem servir de ganchos para várias discussões e reflexões. Os diálogos, os fatos e os personagens levantam questões interessantes como a relação entre religião e Estado, qual o papel da religião na vida de um povo, a honra de um soldado, até que ponto um soldado deve seguir as ordens de seus superiores, a relação entre religião e ciência, como a ciência pode ser libertadora... Entre outras coisas mais. Alderamin tem uma narrativa instigante, com uma carga de densidade considerável, sem deixar de ser divertido à sua maneira. O anime é capaz de te deixar ansioso para o próximo episódio e, durante a duração deste você não sente o tempo passar. É interessante, agradável, instigante. 

   Além da narrativa bem construída, talvez um dos animes adaptados de novel possuidor de uma das narrativas mais bem construídas até o ponto em que foi adaptado, os personagens de Alderamin também são muito interessantes. A começar pelo protagonista, Ikta. Apesar de ser preguiçoso e, até mesmo, um pouco mulherengo, ele é grande estrategista. Ikta também costuma ser fiel à suas concepções e tem um lado muito gentil. É um protagonista carismático, por vezes até mesmo engraçado, que faz com que o espectador simpatize com ele. A forma como ele vence os inimigos através de suas estratégias também é algo fascinante.

   Ikta tem como melhor amiga Yatorishino Igsem. Yatori é a protagonista feminina da série, ela faz parte de um clã que integra o exército há muitos anos, famoso por lutar utilizando duas espadas. A garota possuí longos cabelos vermelhos e é extremamente fiel ao seu dever como soldado. Muitas vezes, Yatori vê a si mesma apenas como uma arma pronta a servir o exército, porém Ikta está sempre a postos para lembra-la que ela é um ser humano. A relação de Yatori e Ikta é outro ponto positivo de Alderamin. Os dois são grandes amigos desde muito tempo, legítimos companheiros, a dupla perfeita. O que existe entre os dois é uma parceria total, é muito bonita a maneira como eles se tratam, se ajudam e se preocupam um com o outro. Yatori é uma mulher forte e gentil, sempre pronta para dar uns puxões de orelha em Ikta quando preciso; Ikta, por sua vez, está ao lado de Yatori para o que der e vier dentro e fora do exército. Juntos eles são quase imbatíveis.

   Outra personagem importante de Alderamin é a princesa, Chamille Kitra Katvarnmaninik. Inicialmente ela tem treze anos e aparenta ser muito frágil. De fato, por ser uma princesa, ela nunca é colocada na frente de batalha. Chamille tem uma áurea um pouco mimada e levemente antipática em alguns momentos, entretanto, ela está longe de ser uma completa ingênua. Ela conhece Ikta e Yatori num navio a caminho do exame para Oficial Militar; no mesmo navio se encontram também Torvay Remion, Matthew Tetdrich e Haroma Becker.

   Torvay Remion é membro de uma família conhecida por manejar rifles de ar. Por conta disso ele é muito bom com armas, embora não tenha muita confiança em si mesmo. Torvay é muito gentil e cumpre seu dever com muito afinco; aos poucos ele vai se tornando mais confiante e amadurecendo cada vez mais. 

   Matthew Tetdrich, por sua vez, faz parte de uma família menos conhecida do que Yatori e Torvay. Matthew tem muita vontade de provar seu valor e é muito barulhento. Ainda assim, ele é muito corajoso e sabe que é capaz de fazer as coisas. Já Haroma Becker tem habilidades no campo da medicina; é uma garota muito bonita e doce, e uma médica responsável.

   Ikta, Yatori, Chamille, Torvay, Matthew e Haroma formam um grupo muito interessante. Algumas circunstâncias, logo no início da história, fazem com que eles tenham de trabalhar juntos. Por conta disso, eles acabam se tornando companheiros e essa relação progride conforme a narrativa caminha. Eles confiam em sua capacidade e na capacidade uns dos outros, formando uma boa equipe em várias situações.

   Em relação a parte mais “técnica” de Alderamin não existem muitas coisas para se criticar. A animação é boa e linear; já a trilha sonora casa perfeitamente com o clima da animação. A abertura é agitada o suficiente para deixar o espectador preparado para o episódio que virá a seguir e as músicas de fundo durante as batalhas dão um toque e um clima especiais para a cena toda.

   Nejimaki Seirei Senki: Tenkyou no Alderamin foi a agradável surpresa da temporada passada. Com uma narrativa instigante sem deixar de ser divertida, personagens cativantes e cenas regadas com uma boa trilha sonora, o anime conquista, lentamente, o espectador. Alderamin conta a história do caminho militar de Ikta Solork em meio à guerra entre a República de Kioka e o Império de Katjvarna. Quais serão os desafios desse caminho e como essa guerra acabará?

“Para alguém que odeia soldados, a família imperial e heróis, é um papel perfeito para você. Por isso não hesite, Ikta Solork”.

Resenha: Re: Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu


    Vez por outra, no maravilhoso (ou nem tanto) mundo do entretenimento, aparece alguma obra que causa uma grande comoção. Uma daquelas que dá, literalmente, muito o que falar. Esta obra pode ser um filme, um livro, uma música, uma banda ou um anime, por que não? De tempos em tempos aparece aquele anime que todo mundo comenta, que a grande maioria assiste e cujos comentários sobre são, em sua maioria, positivos. O famigerado anime que une todas as tribos. Esse é o caso de Re: Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu. 

    Estreante da temporada de abril desse ano, Re Zero foi muito assistido e, obviamente, muito comentado. A história é originalmente uma série de light novel escrita por Tappei Nagatsuki e ilustrada por Shinichirou Otsuka; a série conta, atualmente, com oito volumes publicados. O enredo gira em torno de Natsuki Subaru, um jovem que é subitamente invocado para um mundo desconhecido. Sem ter a menor noção do que fazer ou para onde ir nesse misterioso local, Subaru acaba por conhecer uma jovem meio-elfa de cabelos prateados. Não muito tempo depois os dois são assassinados; então, Subaru acorda e descobre quem tem a habilidade de “retornar pela morte”. Sempre que morre o garoto acorda em um ponto anterior ao dos acontecimentos que lhe levaram ao trágico final, ele retém todas as suas lembranças até o momento que morreu, porém somente ele sabe das coisas que aconteceram e que ainda estão por vir. Após voltar no tempo pela primeira vez, Subaru decide que fará de tudo para salvar a garota de cabelos prateados.

    Num primeiro olhar Re: Zero não tem nada de mais; é um enredo que não foge muito de uma grande gama de coisas que encontramos por aí. Entretanto, desde já adianto que Re: Zero tem alguns toques especiais. Primeiramente, preciso deixar claro que é bem difícil para mim falar desse anime. Eu assisti os vinte e cinco episódios; durante e depois de assistir tudo refleti muito sobre minha opinião com relação à obra em si. Creio que, mesmo agora, ela ainda esteja se firmando. Cada vez que relembro toda a trajetória do anime e as sensações que ele me causou compreendo melhor o que penso sobre a obra.

Para começar, vou tentar fazer um balanço das minhas impressões sobre o enredo do anime. Um apanhado geral para depois discutir alguns outros pontos. Comecemos pelo começo, então. Quando fiz minha lista de animes da temporada de abril Re: Zero não estava entre eles. A sinopse não me chamou a atenção, eu já estava com muitos animes na lista, apenas passei por cima. Então, o anime estreou. Vi várias pessoas comentando sobre o primeiro episódio, em especial sobre a atitude do protagonista. Acabei ficando curiosa e fui conferir. A minha impressão do primeiro episódio foi: legal. Foi um episódio com uma boa animação, introduzindo a história da narrativa e um final com um gancho capaz de deixar o telespectador curioso. Quanto ao Subaru, também não tinha nenhuma opinião grandiosa. Ele parecia meio idiota, só. Em suma, era legal, mas nada espetacular.  Na semana seguinte assisti o segundo episódio, que não me empolgou nem metade do que o primeiro. Pensei “é, vai ficar só nessa dele morrendo e voltando para tentar salvar a garota mesmo...”; então, veio o terceiro episódio. Esse me empolgou. Teve ação, enfim uma batalha verdadeiramente boa, e a bela garota de cabelos prateados ganhou mais destaque deixando a posição passiva na qual, até então, estava sendo deixada. Fiquei feliz ao perceber que a história seria menos repetitiva do que eu havia pensado, eu estava enganada, ainda bem. Então, veio o episódio quatro e cinco e vi Subaru ficar preso num arco de repetição péssimo para ele. Entretanto, do quarto ao sexto episódio, a história não havia me tocado. Era tecnicamente bem executado, eu entendia o sofrimento do Subaru, mas faltava alguma coisa; talvez pelo fato de minha relação com Subaru ficar entre a indiferença e a antipatia. A chegada do episódio sete serviu para dar uma sacudida nas coisas; o final do sétimo episódio foi bom o suficiente para me deixar consideravelmente curiosa para o próximo. Os episódios seguintes também me agradaram, embora não alcançassem o mesmo impacto que o sétimo. Ainda assim, foram episódios nos quais não percebi o tempo passando. No episódio doze o anime entrou em uma nova fase e, é logo depois disso, que a história entra num patamar cujo adjetivo bom se torna, definitivamente, justo. Os episódios referentes à seleção real na capital não foram os meus favoritos, entretanto foi a partir deles que minha antipatia pelo protagonista aumentou. Mais do que isso, minha indiferença desapareceu e eu comecei a sentir raiva, de fato, do Subaru. Ele me irritava o tempo todo. Porém, é a partir do episódio quinze que as coisas dão uma guinada de vez, culminando no episódio dezoito que é genuinamente bom. Este episódio, o episódio de número dezoito, é inegavelmente bom. A trilha sonora, os diálogos, a emoção que é passada, a tensão.... Tudo é feito para tocar o expectador e consegue. Os episódios seguintes, apesar de não tão avassaladores, também são satisfatórias. Terminando sempre de uma forma que te deixa curioso para assistir o próximo. Nesse recurso, destaque para o episódio vinte e quatro que tem um plot twist que pode ser esperado, mas que causa um impacto quando acontece. Em resumo, a trajetória da narrativa de Re: Zero é evolutiva. Ainda que a história não seja a melhor do mundo, ela é evolutiva e tem recursos capazes de prender a atenção.

     Pensando na narrativa enquanto enredo, como já disse, não é nada espetacular. Inclusive, tem algumas falhas visíveis, e não estou me referindo a coisas que ainda podem ser corrigidas nos volumes posteriores da série. Como exemplo é possível citar a personagem Felt. Ela aparece nos primeiros episódios, desaparece, retorna no episódio da seleção real e, mais uma vez, some sem deixar vestígios. Ainda no plano do sumiço temos o desaparecimento da personagem Rem, já nos últimos episódios, sem nenhuma explicação de para onde ela foi.

     Um outro aspecto que sempre me incomodou em Re: Zero é o fato do Subaru amar a Emilia, a garota de cabelos prateados, sem nenhum motivo aparente. Não adianta tentar justificar, no fim das contas a ideia passada é que ele a ama porque ela é bonita, nada além disso. A posição passiva em que Emilia é colocada também acaba me desagradando um pouco. A garota tem potencial, ela é capaz de cuidar de si mesma, mas acaba ficando sempre apagada, tendo grandes cenas em pouquíssimos momentos.

Pensando o enredo num todo, de uma certa forma, ele é uma grande salada. Tem elfos, tem empregadas, maldições, bruxa misteriosa, culto religioso... Tem de tudo para todos os gostos. Porém, talvez eles se conversem e se equilibrem de alguma forma.

Entretanto, se o enredo de Re: Zero não é um dos mais bem trabalhados do mundo, os personagens são um aspecto mais bem feito. Assim como a trajetória da história, os personagens de Re: Zero também são evolutivos. Eles se desenvolvem. Não todos, claro, mas alguns e isso já é algo bom o bastante. Pensemos, por exemplo, a Rem. A garota aparece logo na primeira metade da narrativa juntamente com sua irmã, Ram. Aos olhos de todos Rem não passava de uma personagem secundária, mas ela cresce de uma forma maravilhosa. A garota se torna mais densa, mais importante e conquista o público de uma forma incrível.

     Outro personagem que também se desenvolve é o próprio protagonista. Ele me fez passar do desinteresse para a implicância, então a raiva, e mesmo assim me fez torcer por ele. Particularmente, ainda não gosto muito do Subaru, mas ele é capaz de causar reações. As pessoas gostam ou desgostam dele, isso é bom. Causar reações e sensações no público significa que o personagem é mais complexo, é sinal de que ele é capaz de fazer o expectador pensar sobre ele e seu papel na narrativa. É uma das coisas que caracteriza um bom personagem.

   Em Re: Zero, nem todos os personagens são desenvolvidos, mas quando ocorre o desenvolvimento ele é bem feito. Esse é, para mim, um dos melhores pontos da narrativa. Foi isso que fez com que eu não abandonasse a história, mesmo quando não estava totalmente convencida por ela. 

    Outra coisa que eu gosto em Re: Zero é a grande quantidade de boas personagens femininas que a história possuí. Rem, a empregada da mansão que acaba por roubar a cena completamente; Emilia, a meio-elfa que apesar de parecer estar sempre meio apagadinha tem momentos que acentuam uma personalidade; Beatrice, a responsável pela biblioteca da mansão, com um humor nem sempre muito bom; Crusch, uma das candidatas à seleção real, com um semblante e atitudes duronas, mas uma pessoa fantástica... E por aí vai. São personagens femininas boas, elas não são apenas objeto decorativo. Pensando na imagem inicial que Re: Zero me passou, isso me soou, no mínimo, surpreendente.


     De uma forma geral, Re: Zero ganha o status que têm por conta, justamente, desse fato: a surpresa. Num primeiro olhar, não é comum se esperar muita coisa de Re: Zero. A obra é evolutiva. Evolutiva enquanto narrativa, evolutiva enquanto desenvolvimento de personagem, evolutiva com relação aos finais dos episódios... Depois do quinze, o fechamento do episódio sempre acaba te deixando ansioso para o próximo. Isso é ótimo para uma série que ainda está em lançamento. Dessa forma o anime ganha o público, as pessoas querem saber o que vai acontecer. Esse é um mérito que não se pode tirar de Re: Zero.

Tecnicamente, o anime também é bem executado. A animação é boa e linear; dá uma caidinha nos episódios mais para o final, mas só para deixar para fazer as coisas bem-feitas no último episódio. A trilha sonora também é legal e combina muito com as cenas. Esse é outro ponto positivo da obra, pensando nela como série de anime.

    Num todo, Re: Zero foi um bom anime. Não tem o enredo mais impecável do mundo, mas tem coisas positivas o suficiente para fazer ganhar a atenção e agradar ao público. De zero a dez, Re: Zero mereceria, a meu ver, uma nota entre sete e oito, dependendo do que você vai presar mais na hora de dar o veredito. Se eu recomendaria Re: Zero para as pessoas? Com certeza, a história tem elementos para todos os gostos, o que torna possível que agrade uma grande quantidade de pessoas.

    Em suma, foi divertido acompanhar Re: Zero. O anime me surpreendeu bastante, eu não esperava nada mesmo, e foi uma boa experiência aguardar os episódios, curiosa. Afinal, Re: Zero é isso mesmo: uma salada de várias coisas; um genuíno anime capaz de unir todas, ou ao menos várias, tribos.

A temática do duplo em William Wilson e Clube da Luta: a consciência e a dupla personalidade


 A temática do duplo é algo que remonta aos tempos da antiguidade e que vem se desenvolvendo e modificando através dos séculos; ao longo desse tempo essa questão vem sendo abordada em diferentes áreas, tais como as artes plásticas, o cinema e a literatura. Nesta última, há uma infinidade de títulos onde o duplo se faz presente, seja como tema central, seja como um aspecto da trama, sempre em suas mais variadas formas de representação. Adilson dos Santos (2009) afirma que fazer uma síntese do tema do duplo não é uma tarefa fácil de se realizar, uma vez que este pode ser observado sob várias perspectivas, dependendo do contexto, de que e de onde se fala. As incontáveis transformações que sofreu aumentam ainda mais tal dificuldade. Pode-se apenas dizer, com segurança, que as histórias de duplo apresentam uma face invariável de impasse, propiciadora de um sentimento de insegurança e mistério, nem sempre decifrável ou de compreensão plena, mas, nem por isso, menos estimulante.

Há relatos de antigas lendas nórdicas e germânicas onde já se figurava a presença do duplo. Para eles o aparecimento do duplo era considerado um acontecimento funesto, um mau agouro, que pressagiaria a morte. O caminho percorrido pela temática do duplo na história da literatura mundial poderia ser divido em duas partes: na primeira parte, da antiguidade até o século XVI, o duplo aparece como figuração do homogêneo, simbolizando o idêntico e sendo retratado através do conceito de gêmeos ou sósias; na segunda parte o duplo é a expressão da heterogeneidade.

A partir do final do século XVI a ideia de duplo como conceito homogêneo começa a ser abandonada, embora não seja totalmente extinguida. Com o nascimento da ideia de “subjetividade” no século XVII, ocorre uma profunda mudança na representação do duplo. Com a chegada do século XIX o duplo começa a representar a divisão do eu e a partir daí, cada vez mais se é problematizada a heterogeneidade, em lugar da homogeneidade.

Este duplo heterogêneo configura-se através da ideia de existência e/ ou criação de um outro, que pode apresentar-se “como um ser complementar e/ou auxiliar; na condição de um substituto perfeito; na qualidade de protetor ou de ameaçador e perseguidor; como agente responsável por trazer à tona uma outra faceta até então desconhecida; [..] enquanto opositor e/ou inimigo e etc.” (SANTOS, 2009, pg.71)

É possível dividir esse “outro”, ainda, em dois tipos diferentes de duplo: o duplo exterior, que se configura como uma entidade cuja a origem é extrínseca ao “eu”. A existência desse duplo “dá-se quando há o confronto entre indivíduos cuja diversidade revela-se inevitável: de um lado, tem-se o ‘eu’, do outro, aquele que é por ele percebido como diferente, isto é, o ‘outro. ’” (SANTOS, 2009, pg. 74); o segundo tipo de duplo, é o duplo interior, cuja gênese fundamenta-se no eu. No duplo interior, o ‘outro’ não é uma entidade que se formou externamente, mas sua origem dá-se no interior do sujeito.

Nesta modalidade, o duplo surge como representação de uma cisão interna, de um conflito psíquico. O indivíduo libera partes aprisionadas de si mesmo, projeta seus demônios interiores (ansiedades, perturbações, medos, angústias e etc.) e, extraordinariamente, materializa-os na forma de um segundo ‘eu’. Este, refletindo o seu interior e assumindo-se-lhe exterior — como se fosse uma sombra, um reflexo —, conquista uma autonomia sem precedentes, adquire existência própria, levando o sujeito no qual fundamentou sua gênese a intimidar-se com sua presença e, até mesmo, a encará-lo como antagonista. Sua existência pode inclusive conduzi-lo à morte ou à loucura. (SANTOS, 2009, pg.  75).

Dentre as obras literárias que abordam a temática do duplo interior encontram-se o conto William Wilson de Edgar Allan Poe e o livro Clube da Luta de Chuck Palahniuk. Ambas foram escritas e publicadas em épocas completamente diferentes: William Wilson é um conto do século XIX, enquanto Clube da Luta é um romance contemporâneo; entretanto, o elemento do duplo presente em ambas as aproxima seja por semelhanças ou por diferenças.

O conto de Edgar Allan Poe apresenta um protagonista que não revela seu nome; este, apresenta-se como William Wilson, pois, segundo ele mesmo, a página em branco diante de si não deveria ser manchada com seu verdadeiro nome. Na primeira parte do conto o narrador descreve tanto sua natureza quanto a natureza de sua família e conta como ele conheceu aquele que durante todo o restante da história viria a ser o “outro”, o “duplo”. Durante seus tempos de escola, Wilson-narrador vem a conhecer um garoto que, embora não possuísse nenhum parentesco com ele, possuía seu nome e seu sobrenome; eram, ainda, os dois muito parecidos, motivo pelo qual as demais pessoas muitas vezes os tomavam como irmãos.

No romance Clube da Luta, o protagonista não possuí nome nenhum, nem mesmo um nome inventado, tal qual William Wilson. O livro é narrado todo em primeira pessoa, através da perspectiva do protagonista, um homem que vive “engolido por uma rotina sem muito sentido, a não ser o de perpetuar o modo de vida capitalista orientado pelo consumo. ” (BENEVIDES, 2007, pg.12). Atormentado por uma incurável insônia, o narrador de Clube da Luta começa a frequentar grupos-de-apoio para pacientes que sofrem de diversas doenças com a intenção de encontrar algum conforto e se sentir mais vivo. Porém, ele só começa a encontrar conforto de verdade ao conhecer Tyler Durden. “Seu nome era Tyler Durden e ele era projecionista do sindicato, garçom de um hotel no centro e ele me deu seu número de telefone. E foi assim que nos conhecemos”.

Pouco tempo depois de conhecer Tyler, ocorre um incêndio na casa do protagonista, levando-o a morar com seu novo amigo. Tyler e o narrador se tornam inseparáveis e juntos eles fundam o Clube da Luta, um lugar onde os participantes se enfrentam em combates corpo-a-corpo com a única intenção de competir, extravasar suas angústias e curar suas mágoas.

A relação do narrador de Clube da Luta para com Tyler é de uma intensa amizade; aos olhos do protagonista, Durden é um ser humano cativante, impressionante, fascinante, digno de admiração. O protagonista quer ser como Tyler.

Já a relação entre Wilson-narrador e William Wilson é um pouco mais complexa; inicialmente nem mesmo o próprio narrador é capaz de defini-la com segurança, para ele, os sentimentos que ele nutria por William Wilson “formavam uma amálgama extravagante e heterogênea — uma animosidade petulante que não era ainda ódio, estima, ainda mais respeito, uma boa parte de temor e uma imensa e inquieta curiosidade. ” Ainda assim, esses sentimentos conflitantes acabam dando lugar a algo desagradável. Todos os colegas de escola do narrador lhe admiram e são submissos; todos, exceto William Wilson, o que faz com que a animosidade que o protagonista nutre com relação a este só aumente. Uma noite, Wilson-narrador visita o quarto de William Wilson e ao perceber que os dois são ainda mais idênticos do que havia notado até então, abandona a escola. Entretanto, seu homônimo não o vai abandonar para sempre e William Wilson reaparece mais duas vezes em seu caminho. Após o segundo reaparecimento, Wilson-narrador vê-se perseguido continuamente por seu igual em nome e aparência; não há lugar que vá onde não encontre William Wilson, sempre pronto a atormentá-lo e estragar seus planos.

Wilson-narrador descreve William Wilson como uma sombra, alguém cuja voz não é nada além de um sussurro. No começo do conto, o narrador diz que seu homônimo tem um problema nas cordas vocais, de modo que sua voz é sempre baixa e sussurrante. Apesar de idênticos em nome e aparência, Wilson-narrador e William Wilson são diferentes em natureza. O primeiro é de comportamento perverso e torpe, o segundo o completo oposto disso. Sempre que o protagonista age de acordo com seu mau-caráter, William Wilson aparece e o delata.

Até que um dia, em uma festa à fantasia, enquanto procura pela esposa do anfitrião, Wilson-narrador encontra-se mais uma vez com William Wilson. Cansado de ser atormentado pela presença de seu igual, o protagonista o leva até uma sala privada e lá o golpeia com a espada que portava. Após atingir William Wilson com um golpe mortal, o narrador vê algo que o espanta:

Um vasto espelho — em minha perturbação pareceu-me assim, a princípio — erguia-se no ponto onde antes nada vira; e, enquanto me dirigia tomado de horror, para esse espelho, minha própria imagem, mas com o rosto pálido e manchado de sangue, adiantou-se ao meu encontro, com um passo fraco e vacilante.

É nesse instante que ocorre a compreensão de que o homônimo do protagonista é um duplo interior. E é nesse momento que William Wilson fala, pela primeira vez, com uma voz alta e com a boca do próprio narrador. “—Venceste e eu me rendo. Mas, de agora em diante, também estás morto... morto para o Mundo, para o Céu e para a Esperança! Em mim tu existias... e vê em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua, como assassinaste absolutamente a ti mesmo. ”

Em Clube da Luta, o caminho para a compreensão do fenômeno do duplo começa a dar-se a partir da criação do Projeto Desordem e Destruição. Tyler, portador de uma filosofia de vida peculiar e de uma altíssima capacidade de persuasão, triplica o número de locais onde acontece o Clube da Luta e começa a recrutar os participantes para sua nova empreitada, o Projeto Desordem e Destruição. Aos poucos o protagonista e Tyler vão se tornando mais distantes; o narrador do livro começa a pensar que seu amigo talvez esteja indo longe demais em seus ideais. Tyler começa a nunca parar em casa e a residência que divide com o protagonista fica cada vez mais infestada de membros do Projeto Desordem e Destruição. O narrador da história resolve, então, procurar seu amigo e começa a viajar por todo os EUA. Lentamente, ele começa a perceber que em todos os lugares que visita os conhecidos de Tyler o chamam de “senhor” e agem de modo muito estranho, sem nunca darem nenhuma informação. Até que um estranho em um bar lhe diz que ele visitou esse mesmo local na semana passada, chamando-o de “senhor Durden”. O protagonista nega categoricamente ser Tyler Durden, mas ao ligar para Marla, uma garota que conheceu nos grupos-de-apoio e com quem mantém uma relação complicada, recebe a tão temida resposta “— Tyler Durden — Marla responde. — Seu nome é Tyler Limpa Bundas Cabeçudo Durden. Você mora na paper Street, 5.123 NE, local que agora está repleto dos seus pequenos discípulos raspando a própria cabeça e queimando a pele com soa cáustica. ”

Tanto o conto de Poe quanto o romance de Palahniuk tratam do duplo interior, aquele cuja gênese fundamenta-se no “eu”. Nas duas narrativas, desde o início existem indícios de que o “outro” nasce a partir do próprio protagonista. Em William Wilson, desde o início o narrador diz advir de uma família de temperamento imaginativo e facilmente impressionável; e durante toda a narrativa William Wilson aparece com vestes idênticas às do narrador. Já em Clube da Luta, os indícios são ainda mais sutis. Há uma frase que percorre todo o livro; diversas vezes, o narrador diz que “eu sei disso porque Tyler sabe disso”. E em cenas onde o narrador age, geralmente, de forma excessivamente agressiva, as ações são justificadas com “É isto que Tyler quer que eu faça. Estas são as palavras de Tyler saindo da minha boca. Sou a boca de Tyler. Sou as mãos de Tyler”.

Entretanto, apesar de nas duas obras explorarem essa temática, existem algumas diferenças nas relações travas entre o “eu” e o “outro”. No conto de Poe, William Wilson é uma sombra na vida do narrador, nada além de um sussurro. Ele está em cada lugar que o protagonista vá, é impossível fugir dele e isso atormenta imensamente o Wilson-narrador. William Wilson “é a causa de seu desespero, existe apenas para impedi-lo de agir guiado por seu mau-caráter, restabelecendo o equilíbrio de suas relações com as outras pessoas. Se Wilson é dotado da mesma capacidade, ele opera efeito contrário, anulando os atos desse protagonista sem nome” (BENEVIDES, 2007, pg.2). William Wilson serve para anular os efeitos da personalidade torpe e viciosa do protagonista e é isso que os torna tão opostos. “[…]Poe desenha um personagem a partir da contraposição entre ele e seu contrário, evidenciada pela estratégia narrativa que lança luz sobre um paradoxo – são iguais física e intelectualmente mas diferem em termos éticos e morais. ” (BENEVIDES, 2007, pg.5). Em outras palavras, o “outro” no conto de Poe não é muito mais a expressão de uma consciência do que de uma dupla personalidade. Apesar de, ao dizer pertencer a uma família imaginativa e impressionável, o protagonista assumir-se como propenso a distúrbios de dupla personalidade, a forte relação moral existente entre ele e seu duplo não pode ser ignorada. William Wilson pode vir a ser tanto uma dupla personalidade do narrador, quanto a representação de sua consciência.  

Em Clube da Luta essa relação é um pouco diferente. Se o Wilson-narrador se difere moralmente de seu duplo e o detesta e renega por conta disso, o protagonista de Clube da Luta, por grande parte da narrativa, deseja ser Tyler. Desde o início, o narrador do livro demonstra uma vontade de fugir de sua vida “Se eu podia acordar em um lugar diferente em uma hora diferente, será que eu podia acordar como uma pessoa diferente? ”. Então, em um determinado momento, esse seu desejo de ser outra cria uma nova personalidade. Tyler surge do desejo do protagonista de ser outra pessoa, Tyler é tudo o que o protagonista queria ser; e a “insônia” sofrida pelo protagonista é o gatilho e o meio utilizado para isso.  “— Toda vez que você dorme — Tyler diz —, eu escapo e faço algo louco, bizarro, algo completamente fora de mim”.  No romance de Palahniuk o “eu” e seu “duplo” utilizam o mesmo corpo em horários diferentes. Durante a maior parte da narrativa Tyler é apresentado como um indivíduo diferente e o número de vezes que se pensa nele como produto da imaginação do protagonista é diminuto se comparado à William Wilson. No decorrer do conto de Poe, quando o duplo ainda é apresentado como uma outra pessoa, há muitos momentos em que a narrativa não parece lúcida o bastante e, portanto, ocorre a dúvida se William Wilson existe mesmo ou se o narrador está louco. Já em Clube da Luta, até que o protagonista descubra que o líder do Projeto Desordem e Destruição é ele mesmo, Tyler é tratado o tempo todo como outro indivíduo.

A partir do momento que o protagonista descobre que ele e Tyler dividem o mesmo corpo, têm-se a confirmação total de que o último é uma outra personalidade que está tentando tomar o controle. “Tyler é a outra personalidade que criei e agora ele está ameaçando tomar minha vida real”. Nas páginas finais de Clube da Luta temos o narrador tentando pôr um fim em sua outra personalidade. O embate que há entre eles não é um embate promovido por ódio e recusa, como o em William Wilson, mas um embate para decidir qual personalidade tomará o controle total do corpo.

Tanto William Wilson, quanto Clube da Luta, valem-se da temática do duplo interior, cada uma desenvolvendo a questão ao seu modo. No conto nós temos um personagem que demonstra uma lucidez duvidosa, um duplo que causa um verdadeiro tormento e se apresenta como uma espécie de consciência do narrador e protagonista. No romance temos um narrador que soa muito mais lúcido que, cansado de sua vida e sua rotina, acaba por desejar ser uma outra pessoa, desenvolvendo assim uma segunda personalidade que se descontrola até tentar tomar o controle total de seu duplo. No conto de Poe, o duplo apresenta-se, então, como uma espécie de consciência moral do protagonista. Já no romance de Palahniuk, o duplo é a expressão de uma segunda personalidade, nascida do desejo de ser outra pessoa, do narrador.


Referências Bibliográficas
BENEVIDES, Ricardo. O outro ou o mesmo? A representação do duplo em William Wilson. Revista COMUM, v.12, nº 28, p. 1-16,  janeiro/junho. 2007.

PALAHNIUK, Chuck. Clube da Luta. São Paulo: Leya, 2012. 210 p.

POE, Edgar Allan. William Wilson.
  Acesso em 25/07/2016.

SANTOS, Adilson dos. Um périplo pelo território do duplo. Revista Investigações, Londrina, vol.22, nº 1, p. 51-101, janeiro. 2009.

Resenha: Flying Witch

Ah, os bálsamos da vida... Vez por outra nos encontramos com histórias que são verdadeiros remédios contra o estresse. Com uma história simples e personagens carismáticos, essas histórias possuem um efeito relaxante e podem não ser as melhores e mais complexas do mundo, mas são, com certeza, algumas das mais divertidas.  A temporada de abril teve, pelo menos, dois animes que se encaixam perfeitamente nessa descrição. Um deles foi Tanaka-kun wa Itsumo Kedaruge, e outro foi, sem dúvidas, Flying Witch. 

Flying Witch é originalmente um mangá de autoria de Chihiro Ishizuka. O enredo gira em torno de Makoto, uma jovem bruxa que vai para a cidade de Aomori morar com seus tios como parte de seu treinamento. A história retrata a vida da garota na cidade, suas relações com seus familiares, os amigos que faz na cidade e as peculiaridades de sua magia.


O enredo de Flying Witch é, obviamente, dos mais simples, porém é absurdamente divertido acompanhar as aventuras de Makoto. Apesar da premissa parecer muito boba, cada episódio é mais engraçado do que o outro e quanto mais você se acostuma com os personagens e o ambiente, mais você se diverte.

Tudo começa com a própria Makoto, uma menina meio lerda, sem o menor senso de direção e, por conta disso, muito engraçada. Ela e sua gata, Chito, causam uma certa estranhesa divertida logo na primeira cena; o primeiro episódio do anime já faz menção à falta de senso de direção de Makoto.

Os feitiços, magias e tudo que diz respeito ao universo bruxo no qual a protagonista está inserida são sempre muito simples e divertidos. Nada é muito requentado ou sério, mantendo um clima uniforme com toda a configuração restante do enredo. Todo esse universo mágico, engraçado e divertido conquista rapidamente a pequena Chinatsu, a prima de Makoto, que fica cada vez mais empolgada e encantada com o fato de conhecer uma bruxa e poder ter contato com tudo isso. Já o irmão mais velho de Chinatsu, Kei, parece um pouco menos fascinado por toda essa questão.


Outra personagem profundamente envolvida com toda essa parte mais “mística” é Akane, a preguiçosa irmã de Makoto. Ela é uma bruxa que já terminou seu treinamento e agora viaja pelo mundo. É dona de uma personalidade altamente relaxada e despreocupada, gostando muito de dormir e beber, além de ser muito engraçada. Há ainda Nao, uma amiga de Kei e Makoto, que sempre soa um pouco reticente quando o assunto são as peculiaridades da protagonista..

Flying Witch é um anime muito divertido e bonitinho. Com uma música de abertura que cola na sua cabeça igual chiclete, uma boa animação e momentos muito fofinhos. É diversão na certa. A história é simples e despretensiosa, e é exatamente isso que a torna tão cativante. Flying Witch é perfeito para você sentar, relaxar e não pensar em nada além de se divertir pelos próximos vinte e quatro minutos.












Resenha: Kiznaiver

“Todos querem esculpir suas próprias cicatrizes em outra pessoa.
Todos querem conectar-se com outra pessoa. ”

As relações que as pessoas travam entre si é algo, sem dúvidas, complicado. Pessoas brigam, se odeiam e se ferem mutuamente; muitas vezes, são incapazes de se compreenderem, se entenderem e se unirem, o que acabar por causar grandes problemas como guerras ou ciclos de ódio que parecem não ter fim. Talvez as coisas melhorassem, talvez o mundo melhorasse, se as pessoas fossem capazes de exercer um pouco de empatia. Se elas fossem capazes de se reconhecerem no outro, de compreenderem as dores e os sentimentos do outro. Mas como fazer isso? E se houvesse um experimento? Um sistema capaz de unir as pessoas? Algo que causasse uma experiência forte o suficiente para fazer com que os indivíduos ficassem ligados e aprendessem a compreender o outro? É esse um dos pontos de partida do anime Kiznaiver. 

Kiznaiver é um anime original produzido pelo estúdio Trigger. A história se passa na fictícia Sugumori, uma cidade futurista construída sobre uma terra recuperada. Agata Katsuhira é um estudante do ensino médio incapaz de sentir dor. Um dia, pouco antes das férias de verão, ele é abordado pela misteriosa Sonozaki Noriko; a garota lhe diz que ele foi selecionado para ser um “kiznaiver”. Kiznaivers são indivíduos que compartilham a dor entre si. Quando um kiznaiver é ferido um sistema divide a dor em partes iguais e a distribuí dentre todos os kiznaivers. Os escolhidos para serem conectados a Katsuhira são alguns de seus colegas, todos com personalidades e interesses completamente diferentes; pessoas que em situações normais nunca se aproximariam. Sonozaki diz que o “sistema kizna” é uma experiência crucial para pôr fim a este mundo de conflitos e alcançar a paz. A partir daí os selecionados são obrigados a passar por duras provações para alcançar esse objetivo.

Kiznaiver é um anime curioso em vários aspectos, ou melhor, ele chama a atenção por vários aspectos. O primeiro deles é o próprio enredo: Um projeto que tem como objetivo pôr fim aos conflitos e alcançar a paz mundial, cujo meio utilizado para tal é um sistema que liga as pessoas e as conecta através da dor. O quão benéfico isso pode ser? Quais problemas isso pode vir a acarretar? O quão longe essa experiência pode ir?

A emoção escolhida para ser compartilhada não é outra se não a dor. Os kiznaivers são capazes de sentir a dor uns dos outros. Uma vez que sintam as dores uns dos outros eles serão capazes de compreender essa dor, de saber como e onde, exatamente, está doendo. E ao compartilhar e compreender a dor física, seria possível que começassem a se entender para além disso? Seriam os kiznaivers capazes de se compreenderem verdadeiramente? Seriam capazes de se ligarem de uma forma mais profunda até se conectarem para sempre?

As questões levantadas são muitas e, durante todo o anime, você vê essas questões se desenvolverem. A forma como o sistema kizna age, como ele foi descoberto e todo esse embasamento mais científico acaba ficando um pouco mais de lado porque o que importa de verdade é a forma como os kiznaivers se relacionam. Como ser um kiznaiver e conviver com pessoas tão diferentes afeta a vida de cada um deles. Ao sentirem na própria pele as dores uns dos outros, os kiznaivers vão, lentamente, se compreendendo melhor. Apesar de todos os contras, de todas as brigas, pessoas que em situações normais nunca nem se olhariam começam a desenvolver empatia um pelo outro. Cada vez eles ficam mais ligados, conectados para além do sistema kizna.

Kiznaiver é uma narrativa que mexe muito com as emoções dos personagens e, ao mexer com as emoções destes, acaba por mexer com as emoções do expectador. Existem cenas muito tocantes. É dramático, é intenso, é doloso. E quanto mais você se apega aos personagens mais intensas e dolorosas as coisas vão ficando. Conforme a história vai avançando, a dor vai deixando de ser somente física e vai avançando outros patamares. Cada episódio é mais forte e mais dramático que o outro, ao mesmo tempo que há sempre algumas cenas engraçadas para que a narrativa não se torne deprimente. Kiznaiver é deliciosamente intenso. 


Outro ponto que chama a atenção no anime é o design dos personagens. O traço, as cores dos cabelos, até mesmo as roupas, tudo é meio maluco, no melhor sentido da palavra. A forma que os personagens se apresentam visualmente causa um certo estranhamento, o que os tornam tão curiosos quanto o próprio enredo. É malucamente bonito.

Os personagens, porém, não chamam a atenção somente pela forma estética; as personalidades de cada um deles contribuem bastante para isso. Todos são, absolutamente, diferentes uns dos outros. E mesmo que marcados pelo passado, as marcas são diferentes e a forma como eles reagem a elas também. Cada kiznaiver é único.

Comecemos pelo protagonista, Agata Katsuhira. Ele é incapaz de sentir dor, mas não só isso. Katsuhira também não é bom expressar seus sentimentos, não importando de quais natureza sejam. Ele é apático, como se nada o afetasse. Em seu olhar não há medo, não há dor, é como se não houvesse nada. Entretanto, ele sente as coisas, embora não consiga expressá-las de nenhuma forma. É através de seu contato com os demais kiznaivers que Katsuhira começa a compreender melhor suas próprias emoções e procurar meios de demonstrá-las.

Temos então, Takashiro Chidori, a amiga de infância de Katsuhira. Chidori é bastante emocional e um pouco intrometida. Ela conhece Katsuhira há muito tempo e se lembra de quando ele era uma criança animada e engraçada; Chidori quer trazer o “antigo eu” de seu amigo de volta, livrando-o da apatia que parece consumi-lo atualmente.

Outro escolhido para o sistema kizna é Tenga Hajime, um delinquente impulsivo e agitado, chegando até mesmo a ser desagradável. Porém, por baixo de todo esse jeitão de mau, Tenga se preocupa muito com seus amigos e está sempre pronto para ajudar. Ele tem um jeito meio maluco e engraçado que o torna, de longe, um dos personagens mais carismáticos.

Apesar de Tenga ter esse jeitão meio maluco, a verdadeira excêntrica do grupo é Niiyama Niko. A garota é toda cheia de energia, um poço de animação, que alega ser capaz de ver fadas. Niko se veste de um jeito muito colorido, toda a sua aparência é ainda mais colorida do que a dos demais personagens. A aparência dela chega a lembrar uma bonequinha de pano. Entretanto, apesar da intensa animação e da fofura excessiva, Niko tem um lado consideravelmente maduro e perspicaz. Toda essa personalidade excêntrica dela a torna, ainda, tão engraçada quanto o próprio Tenga.

O quinto kiznaiver é Yuta Tsugihito. Yuta é um estudante astuto, centrado e muito popular com as garotas. Ele se preocupa bastante com sua aparência e tenta se envolver o menos possível com os outros kiznaiver, com exceção de Honoka, a única de quem ele verdadeiramente se aproxima.


Maki Honoka é uma garota inteligente e distante que mantém uma atitude fria e condescendente com as outras pessoas. Tem um passado complicado e triste, o que faz com que ela seja um pouco amarga e não queira se aproximar muito das outras pessoas. Honoka é a que menos aceita a ideia dos kiznaivers tornaram-se amigos.

O último membro dos kiznaivers é Hisomu Yoshiharu, um garoto bonito e um tanto misterioso. Hisomu é um masoquista, portanto, está mais do que satisfeito com a possibilidade de sentir a dor física de seus companheiros. Apesar disso, ele não é potencialmente perigoso e passa a maior parte do tempo sorrindo. Hisomu é também absurdamente franco, muitas vezes irritando os demais kiznaivers. Ele nunca vai às aulas e nunca tinha sido visto por seus companheiros até todos serem selecionados como kiznaivers.

A responsável por apresentar o projeto kiznaiver para Ktsuhira e os outros é Sonozaki Noriko, uma garota muito bonita que não demonstra emoção alguma. Ela está determinada a levar o sistema kizna adiante e faze-lo dar certo, não se importando, muitas vezes, com o que terá de fazer para atingir o objetivo.
Além da personalidade e do design dos personagens, e da história em si, outro ponto atrativo em Kiznaiver é a trilha sonora. A abertura de Kiznaiver é, para todos os defeitos, linda. A música, as cores, as formas... Tudo se encaixa perfeitamente. É uma grande mistura de cores e sons quase entorpecente. É muito bonito e te conquista nos primeiros segundos. O encerramento não é tão empolgante, mas é bem feito e conversa bastante com o anime no geral. A animação não foi impecável, houveram alguns deslizes até que visíveis, mas o enredo e a aparência dos personagens compensam essa parte.

Kiznaiver foi, de longe, um dos animes mais emocionantes da temporada passada. Emocionante no sentido exato da palavra, não só empolgante. Foi reflexivo, forte, intenso e dramático, capaz de levantar a questão: como seriam as coisas se as pessoas conseguissem se conectarem e se compreenderem genuinamente? Kiznaiver foi, em todas as instâncias, lindo.

“É porque não entendemos, apenas supomos o que o outro pensa.
E ficamos tentando capturar o significado de cada palavra...
Você acaba pensando tanto na pessoa, e se aproximar deles acaba se tornando
algo doloroso, assim você acaba se distanciando...
Ao fazer isso, sempre e sempre, você acaba se tornando amigo. ”






Resenha: Bungou Stray Dogs

Um garoto órfão. Um gigantesco e poderoso tigre azul. Uma agência de detetives portadores de habilidades especiais. Uma máfia perigosa. Esses são alguns dos elementos que fazem parte da trama de Bungou Stray Dogs. Nakajima Atsushi foi expulso de seu orfanato, não tem para onde ir e nem o que comer. Um dia, quando está na beira de um rio, quase morrendo de fome, acaba salvando um homem que tentava cometer suicídio. O homem se chama Dazai Osamu; ele e seu parceiro, Kunikida, fazem parte de uma curiosa agência de detetives. A Agência de Detetives Armados é composta por membros portadores de poderes especiais, eles lidam com casos muito perigosos para a polícia ou as forças armadas. Osamu e Kunikida estão rastreando um perigoso tigre que andou rondando a área; as aparições do tigre começaram na mesma época que Atshushi chegou à cidade. O tigre parece ter alguma ligação com o garoto órfão e, após o caso ser resolvido, Atsushi se envolve cada vez mais com Dazai e A Agência de Detetives Armados. 
Bungou Stray Dogs é um mangá escrito por Kafka Asagiri e ilustrado por Sango Harukawa. A adaptação em anime foi produzida pelo estúdio Bones e dividida em duas partes. A primeira parte foi ao ar durante a temporada de abril desse ano e contou com doze episódios.
Uma das primeiras coisas que devem ser ditas com relação a Bungou Stray Dogs é que o anime não é uma "grande obra de arte". Não é o melhor anime do mundo e talvez não tenha sido nem o melhor da temporada, porém, ainda assim, à sua maneira, ele é bom. Stray Dogs é divertido e engraçado e, apesar de seus personagens serem bishounen, a história toda não é só um grande "fujoshi-bait". Há um enredo de fato; coisas acontecem, conexões são descobertas, ligações são percebidas.... Não é tudo jogado ou só uma desculpa para fazer mídia com personagens bonitos, tem história de verdade. Inclusive o anime termina com um gancho muito legal. Desde o começo do episódio final o expectador está esperando e percebendo alguma coisa, mas não espera que vá  seja AQUELA coisa.     
Os personagens, em geral, também são muito carismáticos. Os membros da Agência de Detetives Armados são, em sua maioria, muito engraçados. Cada um com um jeito especial. E até mesmo os "vilões" da Porto Mafia têm seu charme. Comecemos pelo próprio Atsushi, o garoto abandonado até mesmo pelo orfanato onde morava. Ele possui uma habilidade especial muito poderosa, mas não tem lá muito controle sobre ela. Atsushi é, por assim dizer, um amor de pessoa; aos poucos ele vai desenvolvendo melhor sua relação com os membros da agência, seus poderes e se tornando mais forte e corajoso.
   
Temos então, Dazai Osamu, o cara do suicídio. Dazai é, de uma certa forma, um personagem bem descolado. Sua habilidade especial permite que ele anule os poderes de qualquer inimigo, o que torna um oponente muito difícil de derrotar. Não foi à toa que Atsushi o conhece enquanto ele tenta se suicidar, Dazai é doido por suicídios. Está sempre tentando se matar de uma forma diferente e cômica. Sua dupla na agência é o sério Kunikida.
   
Kunikida Doppo é um ex-professor de matemática de semblante sério e severo. Ele anda para todos os lados com uma espécie de caderno e fica maluco com as tentativas de suicídio e demais bobagens que Dazai apronta. Entretanto, apesar de ter essa aparência dura, Kunikida tem um coração bem nobre e sempre tenta salvar todo mundo.     

Os demais membros da Agência de Detetives armados tiveram, nessa primeira temporada, um menor destaque no decorrer dos episódios. Ainda assim é relevante citá-los: Tanizaki Jun'chiro é um garoto mais ou da mesma idade de Atsushi, sua habilidade é conhecida como Light Snow e permite criar ilusões dentro de uma determinada área; Edogawa Ranppo é o detetive com mais cara de detetive de todos. Ele tem uma super dedução e é capaz de descobrir o culpado e como se deu um crime somente ao observar as evidências e pensar sobre elas; Miyazawa Kenji é um garoto muito meigo e educado que resolve todos os seus casos na base da gentileza e/ou da cortesia. Apesar da aparência frágil, quando  faminto o garoto se torna possuidor de uma força sobre-humana; Yosano Akiko é a médica da agência, seu poder é conhecido como Thou Shalt Not Die, o único problema é que a habilidade só funciona quando o paciente em questão está à beira da morte; Tanizaki Naomi é a irmã de Jun'chiro e não possuí nenhuma habilidade a não ser um grande afeto pelo seu irmão; por último, temos Fukuzawa Yukichi, o chefe da agência que só aparece quando as coisas estão mesmo num estado crítico. 

   
Dos membros da Porto Mafia é necessário destacar Akutagawa Ryunosuke e sua habilidade conhecida como rashomon. Poderia descrever Akutagawa como uma pessoa muito raivosa; poderosa e raivosa. A cada aparição dele é possível perceber quanta ira ele tem guardada dentro de si. Ele também é responsável por algumas das melhores cenas de ação de toda a trama.
   
E por falar em cenas de ação, são elas uma das coisas mais legais de todo o anime. Elas são bem-feitas e devidamente emocionantes. Explosões, coisas quebrando, habilidades novas aparecendo e confrontos que não ocorrem de forma leviana. Bungou Stray Dogs acabou tendo uma quantidade de cenas de luta e confrontos maior do que o esperado. Nesse quesito o anime saiu melhor que a encomenda.
   
Um outro ponto consideravelmente atraente de Bungou Stray Dogs é o curioso fato de os personagens possuírem nomes de escritores e/ ou personagens literários famosos, tais como: Dazai Osamu. Dan Brown e Agatha Christie. É muito legal quando aparece um personagem novo e, ao ouvir o nome, perceber a qual escritor o nome do personagem está relacionado.
   
Num geral Bungou Stray Dogs foi um anime gostoso de se acompanhar. Possuidor de uma história interessante, uma boa trilha sonora, uma animação acima da média e personagens capazes de dar um "Q" a mais no todo da obra. Como já dito, não é o melhor anime do mundo, nem foi o melhor da temporada; Bungou Stray Dogs foi e é Bungou Stray Dogs, e isso já está de bom tamanho.