“Em toda parte, os chamados inimigos
da República
estavam sendo farejados e denunciados
sumariamente.
Paris era muito rápida ― até mesmo ansiosa
para ver
o mal em qualquer lugar que fosse
sugerido.
Provas, como Sophie havia apontado,
não tinham muito peso no temido
Tribunal Revolucionário”
A história da humanidade
é deveras longa e, exatamente por isso, fascinante. Embora existam aqueles que digam
que história não passa de nada além de um punhado de fatos antigos e encarquilhados,
existem mentes que são completamente atraídas pelos episódios que aconteceram
há tantos anos, mas que por vezes ainda reverberam leve, ou até mesmo fortemente,
nos dias de hoje. E dentre os apaixonados por História, não raros são aqueles
que muito se interessam pelos períodos em que o conflito se mostra
gritantemente presente: guerras, batalhas, tomadas de governo, revoluções...
Não é raro encontrar em
livrarias não um, mas vários livros sobre temáticas relacionadas à Segunda Guerra
Mundial, por exemplo, mas este não é o único episódio histórico a ser retratado
na literatura. Em “Um conto de duas cidades” Charles Dickens dá vida uma
narrativa que tem como background a Revolução Francesa; agora, muitos anos após
Dickens, a Revolução Francesa volta a ser palco de uma narrativa ficcional.

Neste cenário, o narrador
do romance segue Jean-Luc, um jovem advogado que vem para Paris junto com sua
esposa, Marie, e André, ex-nobre e membro do exército republicano francês.
Jean-Luc é um idealista; movido por um senso de dever patriótico, ele vem para
capital com o desejo de colocar seus talentos a serviço da Revolução. André,
por sua vez, foge de seu passado privilegiado para lutar no exército ao lado do
irmão mais novo. Coroando a narrativa, tem-se a presença de Sophie, uma bela e
jovem viúva aristocrata, sobrinha de um general tão poderoso quanto vingativo,
que embarca em uma luta por sua própria independência.
Há, pairando sobre Paris,
uma promessa de esperança com a vinda da República e um novo governo;
entretanto, esta esperança começa a ser ameaçada pelo medo, quando a Revolução
parece sair do controle em decorrência de sua busca incessante por justiça e
vingança que acaba por se transmutar em fanatismo, tornando tudo instável e
transformando compatriotas em inimigos.
Em meio a tudo isso, as vidas de Jean-Luc, André e Sophie se entrelaçam,
levando-os a questionar os meios e os sacrifícios feitos em prol da nova
República.
O enredo de “Onde a luz
cai” atravessa os três anos posteriores à queda da Bastilha até a marcha de
Napoleão pelas areias do Egito. Desta feita, o romance conta com a presença a
de alguns personagens históricos como Robespierre, Luís XVI, Thomas-Alexandre
Dumas e, até mesmo, o próprio general Bonaparte.
Para início de conversa,
é importante ter em mente que “Onde a luz cai”, trata-se de um romance
norte-americano contemporâneo, de forma que a visão dos fatos nele explanados parte
deste local. Esta não é uma informação que, de nenhuma maneira, invalide o que
está retratado no livro, afinal, os autores estudaram bastante sobre a
Revolução Francesa antes de escrever o romance; entretanto, é interessante ter
em mente de qual lugar o autor de um livro fala, a fim de compreender melhor a
forma que este enxerga o assunto e, assim, ter também uma melhor experiência
com o próprio livro.

Em relação ao enredo, os
fatos são todos bem encadeados, embora completamente previsíveis. A maioria dos
acontecimentos não é surpreendente, já que a narrativa caminha e dá pistas praquilo
o tempo todo. Basicamente, é uma história com muitas reviravoltas, mas poucos
plot twist. Entretanto, ao terminar o livro o leitor acaba tendo a sensação de
que importa mais como os fatos acontecem do que quais fatos acontecem. Talvez,
até mais do que isso, o que importa ao final da narrativa é no que resultam os
acontecimentos do enredo, não os acontecimentos em si, já que não é difícil o
leitor prever exatamente o que vai ocorrer. Desta maneira, apesar de em vários
momentos o leitor conseguir adivinhar o que vai acontecer, o livro ainda se
mantém interessante.
Em relação à construção
da narrativa, um dos pontos mais bacanas são as cenas de discussão política. A
capacidade argumentação dos personagens é um ponto forte, que mantém o leitor
entretido e te fazer querer saber como um personagem replicará o outro. Além
disso, toda a história é costurada por um argumento maior: a Revolução está
perdendo o sentido e passando dos limites e pode acabar levando ela mesma a
ruína.
Olhando como um todo,
está presente no um livro uma crítica aos excessos da Revolução e da nova
República. Os pensamentos e opiniões expressos pelos personagens principais e
os próprios eventos nos quais eles se envolvem constroem essa crítica e visão.
As audiências são apenas um ritual de praxe, pois o réu já é tido como
condenado desde o início; os advogados argumentam com o júri e os participantes
da assembleia não com o intuito de apresentar provas, mas claramente tentando
convencer e manipular a opinião pública; e os novos poderosos podem não estar
dentro de castelos, mas não agem de forma menos autoritária do que um déspota
monárquico, ao mesmo tempo que a população pobre continua morrendo de fome nas
ruas, enquanto a classe burguesa disputa poder.
Entretanto, não apenas
dentro das salas de Paris se passa a história, há capítulos em meio a batalhas
e acampamentos de soldados e é muito interessante a maneira que essas cenas são
construídas. Não soa artificial e, talvez, isso se deva ao fato de Owen Pataki
ter servido como primeiro tenente no Exército dos Estados Unidos. Inclusive, a marca do exército francês pelo
Egito sob o comando de Napoleão é responsável por alguns dos momentos mais
emocionantes e interessantes de toda a narrativa.
Tornando a falar da
construção do enredo, outro ponto positivo é como nele se entrelaçam fatos
ficcionais e momentos históricos, de forma que, ao mesmo tempo que os
acontecimentos são fictícios, a base histórica acaba por torná-los verossímeis,
embora, obviamente, hajam liberdades poéticas. Além disso, a presença de Sophie
e Marie na narrativa colocam uma presença feminina relevante na história. Ambas
personagens não parecem fazer, num primeiro momento, nada de muito grandioso,
mas são as ações mais comuns e corriqueiras que as tornam personagens
interessantes. Elas têm personalidade, não sendo apenas um plano de fundo ou o
retrato de apenas uma doce esposa.
Voltando novamente a
falar da construção do enredo, existem dois acontecimentos que não são tão previsíveis
e um deles é bem final, de forma que quebra o ritmo de previsão do leitor.
Enquanto lê, você se acostuma a saber o que vai acontecer, mas bem para o final
acontece algo que você não espera. Mesmo que assim que o personagem coloque o
pé no ambiente, fique claro o que ocorreu, não é como se você, necessariamente,
soubesse que aquilo ia acontecer. Tanto, que você nem consegue entender muito
bem o porquê de algo assim estar ocorrendo logo no final.
Resumindo, “Onde a luz
cai” é um livro bacana. Apesar de ter algumas falhas, como o tom às vezes
deveras açucarado em algumas cenas e ser bem previsível em vários momentos, o
enredo em si e o carisma de alguns personagens conseguem manter o leitor
interessado na narrativa. Além disso, há um argumento percorrendo o enredo, há
um discurso presente nele, desde o começo, o que faz com que você queira ler
até o fim para ver se esse argumento será mantido ou mudado. No final de tudo,
importa mais a quais consequências levam os acontecimentos do que quais são os
acontecimentos em si e se o leitor já esperava ou não por eles.
Em suma, para quem tem
interesse em romances históricos e livros que têm como plano de fundo algum
evento marcante do passado, “Onde a luz cai” pode a vir a ser uma boa pedida e
uma boa experiência de leitura.
“Era um crime questionar, pelo menos
agora.
O Comitê decidiu que qualquer
questionamento das
ações tomadas pelo governo
revolucionário
era insurreição punível com a morte”