"Tudo nesse
livro é invenção, mas quase tudo aconteceu."

Essa foi a primeira vez que li um livro cujo tema central tivesse
relação com a Ditadura Militar brasileira. Já li livros sobre Nazismo,
desaparecimentos, regimes totalitários, mas sobre a Ditadura, de fato, foi a
primeira vez. No livro de Kucinski, literatura e realidade se misturam. A
realidade é contada de forma literária. É ficção, mas é real. É real, mas é
ficção. A filha desaparecida existiu, ela andou pelas ruas por onde andamos,
ela respirou o ar que respiramos, ela era irmã de Kucinski, o pai à procurou....
Ainda que o conteúdo das páginas de K. seja literário, de uma forma ou de outra,
a história é real. Seja pela ligação que a narrativa tem com esse caso
específico, seja pela ligação que ela tem com todos os casos de
desaparecimentos recorrentes durante a Ditadura.
A maneira que a narrativa é conduzida torna a leitura rápida e
interessante. Mas ainda assim, ela te afeta. O relato é, de fato, muito
literário, entretanto, a gente sabe que aconteceu de verdade.... Que acontecia
de verdade! Pessoas sumiram, pessoas morreram, pessoas nunca foram encontradas....
As famílias, que procuraram as vítimas desesperadas, não têm nem mesmo um
corpo. Eles não puderam nem mesmo ser enterrados...
K. são um relato fantástico. É a história de um pai, que como tantos
outros pais, procurou a filha sem desanimar. A história de alguém que, mesmo quando
sabia que a informação era falsa, não podia deixar de ir verificar.
Simplesmente porque têm de ir. Simplesmente porque não ir, é pior do que ir e
descobrir que tudo não passavam de mentiras.
Ao ler esse livro, ao ler esse pedaço de uma história, uma dentre
tantas, eu percebi com uma totalidade o quão cruel a Ditadura era capaz de ser.
Eu sempre soube, mas agora eu tenho certeza, de que a Ditadura Militar foi um
dos períodos, talvez o período, mais cruel e vergonhoso de toda a nossa
história. E ainda temos de ver gente clamando pela volta dela...
Não bastava sumir com a pessoa, não bastava fazer as coisas horríveis
que se faziam, não, era necessário espezinhar a dor daqueles que esperavam por
notícias. Era preciso mentir que fulano tinha sido visto não sei aonde, preso
em tal lugar, o corpo encontrado lá no fim do mundo...
O livro, verdadeiramente, te faz pensar em muitas coisas. Ele é a prova
viva de tudo que a gente ouve na escola, de tudo que a gente lê, de tudo que a
gente estuda. K. mostra que, de fato, tudo aquilo foi real. A Ditadura
aconteceu, as pessoas morreram, as pessoas desapareceram e, muitas delas, até
hoje não se sabe o que aconteceu ao certo. É tudo muito doloroso.
Em termos literários, Kinski está de parabéns. É simples, mas muito bem
elaborado. É sem firula, mas têm estilo. Convence, cativa, comove.... É bom! A
maneira como o relato é conduzido impede o leitor de entrar numa grande onda de
tristeza e desespero, sem que se perca o foco e a seriedade da narrativa.
Quando eu ganhei esse livro, no Natal, eu não tinha ideia de sobre o que
ele tratava, mas hoje posso dizer que foi uma experiência e tanto lê-lo. Nas
páginas de K. foram imortalizas as memórias de uma história que não deve,
nunca, passar desapercebida.